quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A propósito de meditação

Coloco uma nota sobre a meditação tendo em conta sempre que a prática é a melhor leitura.

Alegria de Viver – Parte 2; capitulo 9, encontrar o seu equilíbrio

“Gostaria de começar por uma história, que ouvi há muitos anos, de um homem que fora um nadador consumado na juventude e começou á procura, na velhice, de um desafio que fosse tão atraente como a natação fora nos primeiros anos de vida. Decidiu tornar-se monge, pensando que, tal como dominava as ondas do oceano, iria dominar ondas da sua mente. Encontrou um mestre que respeitava, fez os votos e começou a exercitar-se nas lições que seu mestre lhe dava. Tal como acontece com frequência, não era fácil meditar, por isso, foi procurar conselho junto do mestre. O mestre pediu-lhe que se sentasse e meditasse, para que pudesse observar a sua prática. Depois de o ter contemplado durante uns instantes, o mestre viu que o antigo nadador estava a esforçar-se demasiado e , por isso, disse ao homem que relaxasse. Mas o nadador teve dificuldade em seguir até mesmo aquela instrução simples. Quando tentava relaxar, a sua mente vagueava e o seu corpo afundava-se. Quando tentava concentrar-se, o seu corpo e a sua mente ficavam demasiado tensos. Finalmente, o mestre pergunto-lhe:”Sabes nadar, não sabes?” “Claro”, retorquiu o homem.”Melhor do que ninguém”. “A possibilidade de nadar provem de manteres os teus músculos completamente tensos”, inquiriu o mestre,”ou completamente soltos?” “Nem de uma coisa nem de outra”, respondeu o velho nadador. “Temos de encontrar um equilíbrio entre tensão e relaxamento.” “Bem”, continuou o mestre. “Então, deixa-me perguntar-te agora, quando estás a nadar, se os teus músculos estiverem demasiados tensos, és tu que estás a criar a tensão nos teus membros, ou é outra pessoa que te obriga a ficar tenso?” O homem pensou um pouco antes de responder. Finalmente, disse:”Ninguém exterior a mim me está a forçar a retesar os meus músculos.” O mestre esperou um pouco para que o velho nadador absorvesse a sua própria resposta. Em seguida, explicou,” Se descobrires que a tua mente está a ficar demasiado tensa na meditação, és tu próprio que estás a criar a tensão.Mas se libertares toda a tensão, a tua mente fica demasiado solta e entras em letargia. Como nadador, aprendeste a encontrar o equilíbrio muscular adequado entre tensão e relaxamento. “Na meditação, precisas de encontrar o mesmo equilíbrio na tua mente. Se não encontrares esse equilíbrio, nunca conseguirás obter o equilíbrio perfeito no seio da tua própria natureza. A partir do momento em que descobrires o equilíbrio perfeito no seio da tua própria natureza, conseguirás nadar através de qualquer aspecto da tua vida da amem forma que nadas através da agua.” Em termos muito simples, a abordagem mais eficaz da meditação é tentarmos o melhor que podemos sem nos concentrarmos demasiado nos resultados."

Yongey Mingyur Rinpoche

Para o bem de todos os seres

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Crenças Budistas fundamentais(Budismo Theravada)

Crenças Buddhistas Fundamentais
1-È o principio geral para os budistas a demonstração da mesma tolerância, da mesma indulgência e do amor fraternal a todos os homens, sem distinção, e mostrar também uma bondade imutável para com os animais.
2-O universo foi evoluindo, não foi criado; funciona como ajuste a uma Lei, mas não segundo o capricho de nenhum Deus.
3-As verdades sobre as quais se funda o Budismo são naturais. Cremos que foram ensinadas em sucessivos Kalpas , ou períodos do mundo, por alguns seres iluminados chamados Buddhas, cujo nome significa o “Iluminado”.
4-O quarto(4) Instrutor do presente kalpa foi Sakyamuni( ou Gautama Buddha), que nasceu numa família real na India há cerca de 2500 anos. É uma personagem histórica e o seu nome era Sidharta Gautama.
5-Sakyamuni ensinava que a ignorância produz o desejo, o desejo não satisfeito é a causa do renascimento e o renascimento é a causa do sofrimento. Para se desembaraçar do sofrimento, portanto, é necessário libertar-se do renascimento, para se libertar do renascimento há que extinguir o desejo e para extinguir o desejo há que destruir a ignorância.
6-A ignorância engendra a crença de que o renascimento seja uma coisa necessária. Quando a ignorância é destruída reconhece-se a degradação que supõe cada um dos tais renascimentos considerados como um fim em si mesmo; assim, reconhece-se a suprema necessidade de adoptar um género de vida pelo qual seja abolida a necessidade de tais renascimentos repetidos. A ignorância também engendra a ideia ilusória e ilógica de que só haja uma existência para o homem e essa é outra ilusão de que esta vida única seja seguida por estados de imutável prazer ou tormento.
7-A dissipação de toda esta ignorância pode alcançar-se pela prática perseverante de um altruísmo que tudo abarque na conduta pelo desenvolvimento da inteligência, pela sabedoria no pensamento e pela destruição do desejo dos prazeres pessoais inferiores.
8-Sendo o desejo de viver a causa do renascimento, quando este desejo se distingue, os renascimentos cessam, e o individuo perfeito alcança através da meditação esse estado superior de paz chamado Nirvana.
9-Sakyamuni ensinou que a ignorância pode dissipar-se e afastar-se o sofrimento pelo conhecimento das quatro Nobre Verdades, a saber:
- As calamidades da existência.
- A causa produtora de sofrimento, que é o desejo sempre renovado de se satisfazer a si próprio sem poder alcançar esse fim.
- A destruição desse desejo ou o afastamento dele.
- Os meios de obter essa destruição do desejo. Os meios que ele indicou indicou constituem o Nobre Óctuplo Caminho, a saber: Recta Crença; Recto Pensamento; Recta Palavra; Recta Acção; Rectos Meios de Vida; Recto Esforço; Recta Memória; Recta Meditação.
10- A Recta Meditação conduz á iluminação espiritual ou ao desenvolvimento dessa faculdade de semelhança a Buddha que está latente em cada homem.
11-A essência do Budismo tal como a resumiu Tathagatha( o próprio Buddha) consiste em:- Parar de fazer o mal;- Conseguir a virtude;- Purificar o coração.
12-O universo está sujeito a uma causa natural conhecida pelo nome de karma. O méritos e deméritos de um ser em passadas existências determinam a sua condição na presente. Cada homem, consequentemente, preparou as causas dos efeitos que gora experimenta.
13-Os obstáculos para a aquisição de um bom Karma podem afastar-se pela observância dos seguintes preceitos que estão compreendidos no código moral do Budismo, a saber:
- Não matar;
-Não roubar;
-Não se entregar a prazeres sexuais ilícitos;
- Não mentir;
- Não tomar drogas ou licores embriagadores. Há outros cinco preceitos que não é necessário enumerar aqui para a observância daqueles que querem alcançar, mais rapidamente que o homem ordinário laico, a liberdade da dor e do renascimento.
14-O Budismo repudia a credulidade supersticiosa. Gautama Buddha ensinou que dever do pai educar os seus filhos na ciência e na literatura. Também ensinou que ninguém deve crer o que disser qualquer sábio, o que estiver escrito e qualquer livro ou a tradição afirmar, a não ser que esteja de acordo com a razão. Redigido como programa comum que todos os budistas podem aceitar.

Acrescesse a estes principios aquele sempre defendido por Shakyamuni que tudo deve passar pela experimentação.
Cumprimentos
João Miguel Teodoro

Para bem de todos os seres

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Sangha Rimay Lusófona - Eventos

Conferência "A mecânica quântica: aplicações comuns e implicações incomuns".

Desde os discos rígidos dos nossos computadores, aos leitores laser dos DVDs, desde as fotocopiadoras de fotocondutor até aos transístores dos nossos telefones móveis, a revolução da mecânica quântica moldou as nossas vidas sem que nos tivéssemos apercebido disso. Mas, mais do que uma revolução tecnológica, a mecânica quântica é uma revolução conceptual que nos convida a revisitar o modo como apreendemos o mundo. Esta conferência convida-nos a entrar neste universo simultaneamente fascinante e desconcertante e nas suas múltiplas aplicações. É acessível a todos as pessoas curiosas em descobrir o que há de especial na mecânica quântica.
Solicita-se um contributo (voluntário) entre 5 e 10 € para ajudar a cobrir as despesas de deslocação do Prof. Lemery.
Caso não possa dar esse contributo não deixe de aparecer. É sempre bem-vindo(a).

Data: 19 de Fevereiro de 2010 às 19h00
Local: Sede da Sangha Rimay Lusófona
R. Maria 15, Lisboa (aos Anjos)
(+351) 933 284 587


Retiro "As Cinco Energias de Sabedoria"

A Sangha Rimay Lusófona, em colaboração com a Sangha Rimay Internacional, e com a União Budista Portuguesa, está a organizar a vinda da Lama Wangmo a Portugal para dar ensinamentos sobre as “Cinco Energias de Sabedoria”.

As Cinco Energias de sabedoria, ou famílias de buda, exprimem a vitalidade fundamental da existência. Elas constituem e revelam a interrelação entre mandala interior e mandala exterior. Quando nos fechamos numa atitude egocentrada, as energias exprimem-se como emoções intensas e confusas. Porém, quando nos abrimos, estas mesmas energias são a manifestação do potencial de sabedoria e de despertar e podemos então beneficiar das suas qualidades.
Durante estes 2 dias, seremos convidados a reconhecer a textura particular da nossa experiência através das cinco famílias de buda e a transformar as emoções em energias de despertar.

Data: 20 e 21 de Fevereiro de 2010 das 10h00 às 17h00
Local: Sede da União Budista Portuguesa
Av. 5 de Outubro, nº 122, 8º esq, 1050-61 Lisboa
Custo: 2 dias 70 €
1 dia 40 €
Almoço: Traga uma merenda vegetariana para partilhar
Nota: uma real indisponibilidade financeira não é impeditiva da sua participação. Contacte-nos.
Inscrições: (+351) 933 284 587

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O que é o Budismo?

O budismo é uma abordagem científica, religiosa, filosófica? É uma tradição, um sistema de psicologia, uma prática espiritual, um método de transformação da mente? Para mim ele é uma atitude perante a vida. Existem milhares de abordagens religiosas, filosóficas e psicológicas para nos ajudar a superar as dores e as dificuldades de nossas existências.A tradição budista, em especial, nos proporciona muitos guias eficazes a começar pelo próprio Buda que, renunciando a uma vida principesca, tomou de seu corpo e de sua mente e deles fez instrumento para a iluminação, ou seja, para se tornar espiritualmente livre.A tradição budista abarca um sistema até hoje irrefutável de psicologia e prática espiritual iniciada há cerca de seis séculos a.C. e desenvolvida ao longo de milhares de anos. Para o budismo é extremamente importante a maneira como encaramos as situações da vida diária enriquecendo a tecnologia do despertar com métodos que transformam nossas experiências e emoções com energias criativas aumentando nosso desenvolvimento espiritual e nos conduzindo aos mais elevados estados de consciência.É uma abordagem científica do trabalho que salienta a autoconsciência crítica nos levando a realizar todas as lições e conselhos espirituais à luz de nossa própria experiência e observação.No budismo a compreensão apenas como exercício intelectual não tem o menor valor a não ser que ela transforme nossa vida. Não é aprendizado e sim o reconhecimento da natureza da realidade o que nos leva ao ponto de vista de que o sofrimento existe porque somos ignorantes - no sentido de que já temos uma natureza pura e não sabemos - porque temos medo e necessidades. Assim condicionados, acreditamos que o alívio jaz fora de nós mesmos ignorando que a paz está dentro de nós. Se estamos onde estamos, fomos nós e não os outros que nos colocaram neste lugar. Logo, cabe a nós e a mais ninguém nos tirar desta situação.O Buda foi um sábio e um terapeuta para a mente e não um pregador religioso. Ele não foi um profeta, um messias. Não fundou nenhum credo ou religião. É atribuída ao Buda a afirmação de que não devemos aceitar algo porque é acreditado por muitas pessoas ou porque vem de algum livro. Ele estimulava o uso da própria compreensão, do discernimento após ponderação cuidadosa.A questão é que o que quer que alguém esteja tentando aprender, énecessário que tenha a experiência de modo direto em vez de extraí-la de livros ou de mestres ou apenas com a adaptação a um padrão já estabelecido. O Buda se propôs a não aceitar nada que não tivesse primeiro descoberto por si mesmo. Não se trata da tentativa de obter ajuda de nenhuma outra pessoa, mas sim de descobrir por si próprio.Todos estes conceitos, ideias, esperanças, receios, emoções e conclusões são criados a partir de nosso pensamentos especulativos, das nossas heranças psicológicas, da nossa educação e assim por diante. Tendemos apenas a colocá-los todos juntos, o que é causado, em parte, é evidente, pela falta de qualificação do nosso sistema educacional. Dizem-nos o que pensar em vez de nos ensinarem como realizar buscas verdadeiras em nosso íntimo.O importante é transcendermos o padrão de conceitos mentais que formamos. Dessa forma, é necessário introduzir a idéia da conscientização. Podemos então nos indagar todas as vezes e podemos ir al´me de meras opiniões e das supostas conclusões de bom-senso. Temos de aprender a ser cientistas qualificados e a não aceitarmos nada. Tudo deve ser vista através do nosso próprio microscópio e temos que chegar às nossas próprias conclusões e do nosso modo. Até que façamos isso, não há Salvador, nem Guru, nem bênçãos e orientação que possam servir de auxílio.A questão como um todo, então, é que devemos ver com nossos próprios olhos e não aceitar nenhuma tradição apresentada como se ela possuísse algum poder mágico inerente. Não existe nada mágico que possa nos transformar de um momento para o outro. No entanto, como temos uma mente mecanizada, sempre procuramos por algo que funcione a um leve aperto de um botão. Existe uma grande atração pelo atalho e, se existir algum método de profundidade que ofereça um caminho rápido, preferiremos segui-lo a suportar jornadas árduas e práticas difíceis. Seja na prática da meditação ou na vida do dia-a-dia, existe a tendência de sermos impacientes.Buda nunca alegou ser uma encarnação de Deus ou qualquer tipo de divindade. Era apenas um simples ser humano que tinha passado por certas coisas e que tinha alcançado o estado de vigília da mente. É possível, pelo menos parcialmente, para qualquer um de nós fazer esta experiência.
Para bem de todos os seres.
Cumprimentos João Miguel Teodoro

cortar cabelo

2010 - bons dias para cortar o cabelo segundo a astrologia tibetana

Fevereiro
22 \ 24     --- dias muito bons   

17  \ 18 ------- dias bons

Bom Losar.







Mahakala

Mahakala era a deidade tutelar pessoal do dirigente mongol Kublai Khan. Suas imagens aterradoras em última instancia, deriva da forma irada dos deuses hindus Shiva, conhecido como Bhairava. Na iconografía tibetana normalmente tem uma cabeça com tres olhos saltados. Suas sobrancelhas são como pequenas chamas, e a sua barba é em forma de ganchos. Ele pode ter de dois a seis braços. Mahakala se mostra aqui em sua forma de seis braços. Seus três olhos significam seu poder de compreender o passado, presente e futuro. As cinco caveiras de sua coroa representam os cinco venenos mentais que adormentam nossa existência mortal. São a ira, o desejo, a ignorância, a inveja e o orgulho. Seus seis braços seguram vários objetos simbólicos: A primeira mão direita tem uma faca curva. Na simbologia de Mahakala os cortes da faca curva cortam a vida através das veias dos inimigos quebradores de juramento e obstaculizam os espíritos perturbadores, o crânio utilizado como uma copa tem a função de fazer carne picada dos corações, intestinos, pulmões e veias dos inimigos hostis do Dharma, uma mão uma faca similar em forma de meia lua utilizada na cozinha oriental para cortar carne e verduras em forma de dados. Uma serpente enroscada ao redor do pescoço pode ser a serpente que participa do conteúdo da copa de crânio. Assim como o dorje (raio) habitualmente fica junto com o sino, também a faca curva e a copa de crânio se acompanham. O simbolismo dos dois pares pode ser o mesmo, dado que o instrumento que corta através do nevoeiro da ignorância, representa o método, o princípio masculino, enquanto que a copa simboliza a sabedoria, o princípio feminino. Em muitos sentidos, o instrumento que corta tem o mesmo propósito que o Dorje e a Purbha que se empregam nos rituais.A mão direita seguinte segura um damaru. Seu som significa o som primordial do qual se conta que se originou toda a sua existência manifestada. A mão direita de cima tem um rosário de crânios. A disposição contínua do rosário é um símbolo da atividade permanente, que Mahakala alcança numa escala cósmica. As outras duas mãos esquerdas tem um tridente e um laço respectivamente. O laço é para laçar os que se desviaram do caminho do Dharma, enquanto o tridente representa as Três Jóias do budismo: o Buda, o Dharma e a Sangha. A perna esquerda se estica e a direita se dobra enquanto pisoteia um elefante. O elefante aqui é um símbolo dos obstáculos e, portanto, Mahakala pisoteia todos os obstáculos no caminho do Dharma. Ele está de pé sobre um disco de sol que significa a iluminação que, por sua vez, descansa sobre um loto totalmente aberto que simbolizam a pureza imaculada.

Why the Dalai Lama Matters

Excelente trabalho sobre Sua Santidade.
Espero que este ano que agora começa vos traga calor no coração e muita paz.
Tudo de bom e bom ano do Tigre.




http://www.youtube.com/watch?v=ySsJUr1sMU8

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Namasté

Olá a todos,
tenho como nickname zick mas de facto só sou o João Miguel Teodoro.
Vou começar a minha contribuição com este pensamento retirado da conversa entre dois pombos:
"....seja como for, não te preocupes demasiado, porque um eclipse do sol é tão somente um desaparecimento temporário....."

Muita luz para todos

Para o bem de todos os seres.

Até breve!

Chamam-me João Miguel Teodoro

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Poesia do Dharma: W. H. Auden, uma reflexão sobre o Haiti e o sofrimento humano

Por Paul Griffin

Por causa do terramoto no Haiti tenho tido presente, na minha mente, o sofrimento humano.
Hoje, eu quero partilhar convosco um poema de W. H. Auden, que aborda o tema do sofrimento. Há já algum tempo que não coloco no blogue um post com Poesia do Dharma e, ainda que não considere Auden um escritor particularmente dharmico, sinto que este poema - “Musée des Beaux Arts” – toca habilmente num ponto-chave da questão de como podemos começar a trabalhar com o sofrimento dos nossos semelhantes: prestando atenção a esse sofrimento.

“Musée des Beaux Arts” foi inspirado nas pinturas de Bruegel, especialmente no seu Ícaro (abaixo), que Auden terá visto quando visitou Bruxelas em 1940.


Sobre o sofrimento eles nunca se enganaram,

Auden começa por atribuir aos Velhos Mestres da pintura um correcto conhecimento acerca do sofrimento, especificamente a sua “posição humana”. Auden acreditava que o sofrimento tinha a sua “posição” correcta na experiência humana, uma experiência que também incluía alegria, medo, e amor, etc. De facto, não estou certo sobre o que Auden teria pensado da primeira nobre verdade – que toda a vida é sofrimento. Ele poderia ter considerado uma tal formulação demasiado simplista, demasiado redutora. Auden estava mais centrado na natureza inter-relacionada da experiência humana, da qual o sofrimento era meramente um aspecto mas, na verdade, um aspecto central (talvez o aspecto central – tenho ouvido dizer que todos os poemas de Auden mostram vestígios de lágrimas secas).

Os Velhos Mestres; quão bem eles entenderam
A posição humana do sofrimento; como ele acontece
Enquanto outros estão a comer, a abrir uma janela ou, apenas, num monótono caminhar;


Reparem como este verso, também ele, se limita a um balouçar suspenso por detrás dos outros. O sofrimento acontece enquanto o resto da vida continua, enquanto o resto de nós vai verificar o seu email, ou jantar, ou ver a TV. Enquanto toda a repetitiva monotonia da vida continua aqui, nos Estados Unidos, aqueles que estão no Haiti sofrem.

Como, quando os idosos estão à espera, reverente e apaixonadamente,
Do nascimento milagroso, existirão sempre
Crianças que não desejaram especialmente que ele acontecesse, patinando
Num pequeno lago na orla do bosque;


Nem mesmo o nascimento de Cristo é um acontecimento sobre o qual toda a humanidade se pode focar. É que, simplesmente, não está dentro das nossas capacidades concentrar a nossa atenção em qualquer acontecimento único. Haverá sempre crianças a patinar em pequenos lagos ou a ouvirem os seus iPods.

Eles nunca esqueceram

“Eles”, aqui, são os mestres pintores que sabem que, mesmo em momentos de grande tragédia, tal como o Massacre dos Inocentes no Novo Testamento, quando o rei da Judeia, Herodes o Grande, ordenou a matança de milhares de crianças em Belém, a vida continua ou, usando a terrível frase de Auden, “os cães continuam com a sua vida de cachorros”. Auden está a pensar na pintura de Bruegel O Massacre dos Inocentes, ao escrever os versos que se seguem:

Que mesmo o terrível martírio deve seguir o seu curso
De qualquer forma, algures num canto, um qualquer sítio sujo
Onde os cães continuam com a sua vida de cachorros e o cavalo do torturador
Coça o seu inocente traseiro numa árvore.


Depois, nos últimos oito versos, Auden centra-se intensamente no Ícaro de Bruegel - como o lavrador e o pastor não prestam qualquer atenção à tragédia de um rapaz que cai do céu, numa clara referência ao mito de Ícaro que voou demasiado perto do sol, as suas asas derreteram-se e ele caiu a prumo para a terra. Entretanto, o “navio caro e delicado” e o seu capitão continuam calmamente a navegar, pois têm de estar nalgum outro lugar. Nem mesmo a própria natureza pode prestar uma atenção especial à tragédia de Ícaro: “o sol brilhou/ como tinha de brilhar”.

No Ícaro de Bruegel, por exemplo: como tudo se afasta
Muito tranquilamente do desastre: o lavrador pode
Ter ouvido o barulho da queda na água, o grito desamparado,
Mas para ele não foi um desaire importante; o sol brilhou
Como tinha de brilhar sobre as pernas brancas que desapareciam nas verdes
Águas; e o caro e delicado navio que deve ter visto
Algo fantástico, um rapaz caindo do céu,
Tinha de chegar algures e continuou tranquilamente o seu navegar.


Não creio que, aqui, a intenção de Auden seja didáctica; por outras palavras, eu não o ouço, necessariamente, a chamar-nos a atenção para a queda de Ícaro. Ao contrário, no seu poema Auden está, simplesmente, a descrever como as coisas são. Grandes tragédias acontecem a alguns de nós, enquanto todos os outros estão ocupados. É assim que funciona o sofrimento humano; é esta a sua “posição” na vida humana.

Dito isto, eu senti que ler este poema e olhar para esta pintura foi algo que me ajudou a dirigir a minha atenção, uma vez mais, para o Haiti, para aqueles que lá sofrem diariamente e de uma forma terrível. O poema de Auden é um lembrete para eu olhar, quando alguém se está a afogar. Para ajudar. Para doar. E para, no mínimo, prestarmos atenção, para mantermos nas nossas mentes e nos nossos corações estes companheiros, homens e mulheres em sofrimento e, dessa forma, orarmos por eles.

(texto original em inglês, em: http://blog.beliefnet.com/onecity/author/paul-griffin-1/2010/01/index.html )

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Temos que ser budistas para meditar?


Meditar é essencialmente treinar a mente. A finalidade da meditação é desenvolver qualidades como amorosa compaixão e a atenção, bem como a compreensão correcta da realidade. Durante 2500 anos os budistas utilizaram a meditação para eliminar a ignorância e as toxinas mentais, ou seja, as emoções destrutivas que são a principal causa do sofrimento.

Seguir o caminho budista permite-nos utilizar plenamente o conhecimento e experiência adquiridos por aqueles que, como o Buda, têm despertado do sonho da ignorância. No entanto, o conhecimento que vem da ciência contemplativa, que é precisamente a definição deBudismo, é valioso para todas as pessoas de qualquer religião ou cultura, sem excepção. Todos nós temos uma mente, somos todos presas de diferentes emoções e todos passamos por muitas formas de sofrimento.

O treino permite-nos transformar a nossa mente, superar as emoções destrutivas e dissipar o sofrimento. Os numerosos e profundos métodos que o Budismo desenvolveu ao longo dos séculos podem ser incorporados e usados por qualquer pessoa. O que é necessário é entusiasmo e perseverança. A meditação tem um valor universal: seria uma pena perder a oportunidade de treinar as nossas mentes.

Matthieu Ricard

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Retiro "As Cinco Energias de Sabedoria" com Lama Wangmo

20 e 21 de Fevereiro na sede da União Budista Portuguesa


As Cinco Energias de sabedoria, ou famílias de buda, exprimem a vitalidade fundamental da existência. Elas constituem e revelam a interrelação entre mandala interior e mandala exterior. Quando nos fechamos numa atitude egocentrada, as energias exprimem-se como emoções intensas e confusas. Porém, quando nos abrimos, estas mesmas energias são a manifestação do potencial de sabedoria e de despertar e podemos então beneficiar das suas qualidades.

Durante estes 2 dias, seremos convidados a reconhecer a textura particular da nossa experiência através das cinco famílias de buda e a transformar as emoções em energias de despertar.


Mais informações em www.SanghaRimayLusofona.net/wangmo2010.html

Contactos: SanghaRimayLusofona@gmail.com

(+351) 933 284 587

sábado, 16 de janeiro de 2010

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Uma declaração budista sobre as alterações climáticas

Esta declaração resulta dos contributos de cerca de vinte mestres de todas as tradições budistas que participaram na redacção da obra A Buddhist Response to the Climate Emergency (Uma resposta budista à emergência climática, Wisdom Publications, 2009).

O texto intitulado «Chegou o momento de agir» (tradução da versão original em língua inglesa The Time to Act is Now) de inspiração pan-budista, foi redigido por David Tetsuun Loy (mestre zen) e pelo venerável Bhikkhu Bodhi (mestre da tradição Theravada), contando ainda com a contribuição científica do Dr. John Stanley. Esta declaração tem como seu primeiro subscritor o Dalai Lama. Convidamos todos os membros da comunidade budista internacional preocupados com esta questão a lerem este documento e a juntarem a sua voz, subscrevendo-o.

Chegou o momento de agir

Uma declaração budista sobre as alterações climáticas


Vivemos hoje numa época de grave crise, confrontados com os desafios mais sérios que a humanidade alguma vez experimentou: consequências ecológicas do nosso karma colectivo. A constatação unânime dos cientistas é esmagadora: as actividades humanas estão em vias de provocar um desastre ecológico à escala planetária. O aquecimento global, em particular, está a acelerar-se a um ritmo mais rápido do que se previa, sendo hoje patente no Pólo Norte. Durante centenas de milhares de anos, o Oceano Árctico esteve coberto por uma camada de gelo tão vasta como a Austrália que se encontra actualmente em rápido desaparecimento. Em 2007, o Grupo Intergovernamental de Especialistas em Evolução Climática (GIEC) previu que, por volta de 2100, o derretimento estival dos gelos seria total, mas é hoje evidente que corremos o risco de isso vir a suceder dentro de uma ou duas décadas. A vasta extensão de gelo da Gronelândia está também a derreter mais rapidamente do que se previra. O nível do mar vai aumentar pelo menos um metro ao longo deste século, o que provocará a inundação de inúmeras zonas costeiras, assim como de importantes áreas cultivadas de rizicultura de vital importância como o Delta do Mekong, no Vietname. Por todo o mundo, os glaciares diminuem velozmente. Se as políticas económicas actuais não mudarem, os glaciares do planalto tibetano, que alimentam os grandes rios que fornecem água a milhões de pessoas na Ásia, desaparecerão nos próximos trinta anos.
A Austrália e o Norte da China sofrem neste momento graves períodos de seca e uma diminuição das colheitas. Importantes relatórios, como o do GIEC, das Nações Unidas, da União Europeia e da União Internacional para a Conservação da Natureza, concordam em afirmar que, sem uma mudança de orientação colectiva, a diminuição das reservas de água e dos recursos alimentares, poderá provocar, entre outras consequências, situações de fome, conflitos motivados pela disputa dos recursos, assim como migrações maciças até meados do século – porventura, mesmo, até 2030, segundo o primeiro conselheiro científico do governo britânico.

O aquecimento global desempenha um papel essencial em outras crises ecológicas, como o desaparecimento de numerosas espécies vegetais e animais que partilham a Terra connosco. Os oceanógrafos assinalam que metade das emissões de carbono devidas à utilização de combustíveis fósseis já terá sido absorvida pelos oceanos, o que aumentou a sua taxa de actividade em cerca de 30%. Esta acidificação perturba a calcificação das conchas e dos recifes de coral, ameaçando o desenvolvimento do plâncton, base da cadeia alimentar da maioria das espécies que povoam os oceanos.
Os relatórios das Nações Unidas concordam com as tomadas de posição de eminentes biólogos que afirmam que a continuação da actual política de cegueira voluntária levará à extinção de cerca de metade das espécies terrestres actualmente existentes. Estamos a transgredir, colectivamente, o primeiro dos preceitos: “Não prejudicar os seres vivos”, e estamos a fazê-lo na maior escala possível. Somos incapazes de antecipar o impacto biológico sobre a vida humana que será provocado pelo desaparecimento desta infinidade de espécies que, imperceptivelmente, também contribuem para o nosso próprio bem-estar.

Muitos cientistas chegaram já à conclusão de que está hoje em causa a sobrevivência da própria civilização humana. Atingimos um momento crucial da nossa evolução biológica e social. Nunca na história a necessidade do contributo do budismo para o bem de todos os seres se impôs com tamanha urgência. Por intermédio das quatro nobres verdades dispomos de um quadro que permite traçar um diagnóstico sobre a nossa situação actual e, assim, definir as grandes linhas de uma solução: as ameaças e catástrofes que nos assombram provêm em última instância do espírito humano, pelo que exigem uma fundamental mutação do nosso espírito. Se o sofrimento individual nasce da sede e da ignorância (dos três venenos: a avidez, o ódio e a ilusão), o mesmo sucede quanto ao sofrimento que experimentamos à escala colectiva. A urgência ecológica actual confronta-nos com o eterno sofrimento humano, de uma forma desmultiplicada. Nós sofremos como indivíduos mas também como género, de um si que se vê como separado não só dos outros mas também da própria Terra. Como diz Thich Nhat Hanh: «Nós estamos aqui para despertar da ilusão da nossa separação». Devemos acordar e compreender que a Terra é tanto nossa mãe como nossa casa. Desde logo, o cordão umbilical que a ela nos liga não pode ser cortado. Se a terra adoece, nós também adoecemos porque somos parte integrante dela. As nossas actuais relações económicas e tecnológicas com a biosfera não são viáveis. A fim de sobreviver às duras transformações que se avizinham, os nossos modos de vida e as nossas expectativas devem mudar. Isto supõe não só novos comportamentos, mas também novos valores. O ensinamento budista segundo o qual a saúde global das pessoas e da sociedade depende do bem-estar interior, e não apenas de indicadores económicos, permite-nos definir as transformações pessoais e sociais que devemos empreender.
No plano individual, devemos adoptar comportamentos que manifestem a nossa consciência ecológica no quotidiano, reduzindo assim a nossa pegada de carbono. Para aqueles que vivem em economias desenvolvidas, isto implica modernizar e isolar as casas e os lugares de trabalho para obter um melhor rendimento energético; reduzir o aquecimento no Inverno e o ar condicionado no Verão; utilizar lâmpadas e electrodomésticos de baixo consumo; desligar os aparelhos eléctricos que não estão em uso; conduzir viaturas que consumam o menos possível; diminuir o consumo de carne, favorecendo uma alimentação vegetariana, mais saudável e mais respeitadora do ambiente.

Estas iniciativas individuais, todavia, por si sós, não são suficientes para evitar futuras catástrofes. Devemos igualmente empreender transformações institucionais, no plano tecnológico e no plano económico. Logo que possível, devemos “descarbonar” as nossas produções energéticas, substituindo as energias fosseis por fontes de energia renováveis que são ilimitadas, inofensivas e que estão em harmonia com a natureza. Devemos particularmente parar com a construção de novas centrais a carvão, uma vez que esta é, de longe, a fonte mais poluente e mais perigosa de emissões de carbono na atmosfera. Inteligentemente exploradas, as energias eólica, solar, marmotriz e geotérmica poderiam fornecer toda a electricidade de que necessitamos sem prejudicar a biosfera. Cerca de um quarto das emissões de carbono mundiais são devidas à desflorestação, pelo que deveremos inverter o processo de destruição das florestas, em particular a cintura das florestas tropicais onde vive a maior parte das espécies animais e vegetais.

Torna-se hoje evidente que é igualmente necessário proceder a alterações significativas na organização do nosso sistema económico. O aquecimento global encontra-se estreitamente ligado às monstruosas quantidades de energia que as nossas indústrias devoram a fim de dar resposta aos níveis de consumo que correspondem às expectativas de tantos de entre nós. De um ponto de vista budista, uma economia sã e duradoura deve reger-se pelo princípio da suficiência: a chave da felicidade encontra-se na satisfação e não numa multiplicação crescente de bens e produtos. O comportamento compulsivo que leva a um consumo crescente é expressão de sede, aquela disposição que o Buda identificou como sendo a principal causa do sofrimento.
No lugar de uma economia submetida à lei do lucro que requer um crescimento ilimitado para não falhar, devíamos fazer evoluir o mundo em direcção a uma economia que promovesse um nível de vida satisfatório para todos, permitindo-nos assim desenvolver as nossas plenas potencialidades (incluindo as espirituais) em harmonia com a biosfera, que sustenta e nutre todos os seres, onde se incluem também as gerações futuras. Se os dirigentes políticos não são capazes de reconhecer a urgência desta crise mundial ou se ele não estão dispostos a considerar o bem estar a longo prazo da humanidade acima dos benefícios de curto prazo das companhias que exploram os combustíveis fosseis, talvez seja necessário que os contestemos mediante o desencadear de campanhas persistentes de acção cívica.

Diversos climatologistas, como o Dr. James Hansen, da NASA, definiram recentemente objectivos precisos a fim de evitar que o aquecimento global atinja um limiar crítico catastrófico. Para que a civilização humana seja viável, a taxa aceitável de dióxido de carbono na atmosfera deve ser inferior a 350 ppm (partes por milhão). O cumprimento deste objectivo é recomendado e apoiado pelo Dalai Lama, assim como por outras personalidades agraciadas com o Prémio Nobel e por prestigiados cientistas. Na situação actual encontramo-nos nos 387 ppm, nível que aumenta ao valor de 2 ppm por ano.

É assim necessário não só reduzir as emissões de carbono mas também eliminar a excessiva quantidade de dióxido de carbono já presente na atmosfera.
Enquanto signatários desta declaração de princípios budista, nós reconhecemos o desafio urgente que o aquecimento global coloca. Juntamo-nos ao Dalai Lama para apoiar o objectivo dos 350 ppm. De acordo com os ensinamentos budistas, e conscientes da nossa responsabilidade individual e colectiva, comprometemo-nos a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para atingir esse objectivo, nomeadamente (mas não só) através das acções individuais e sociais aqui sucintamente indicadas.
Dispomos apenas de um curto espaço de tempo para agir, para preservar a humanidade de uma catástrofe iminente e para assegurar a sobrevivência das diversas e belas formas de vida terrestres. As futuras gerações e as outras espécies que partilham a nossa biosfera, não têm voz para nos pedir que demonstremos a nossa compaixão, sabedoria e poder de decisão. Devemos escutar o seu silêncio. E devemos também ser a sua voz e agir em seu nome.

Para subscrever a declaração:

http://www.ecobuddhism.org/350_target/350_target/buddhist_declaration_on_climate_change___french/

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Entrevista

Publico a entrevista que dei ao nº1 da revista Om Yess (Dezembro de 2009), enquanto presidente da União Budista Portuguesa:

1. Pode falar-nos um pouco sobre o seu percurso de vida e como é que ele o conduziu ao Budismo?

Por um lado, tive a felicidade de ter um pai que se interessava por yoga e espiritualidade e que desde cedo me deu livros interessantes para ler e me ensinou técnicas de relaxação. Por outro, desde pequeno tive a convicção absoluta de já ter existido antes desta vida e de ir continuar a existir depois dela. Até que, após uma adolescência turbulenta, em busca do sentido da existência, e de um curso de Filosofia que me mostrou as limitações do mero conhecimento intelectual, acabei por descobrir o yoga, a meditação e o budismo num centro budista tibetano, em Lisboa. Isso possibilitou-me conhecer e receber ensinamentos e iniciações de um mestre como Dilgo Khyentse Rinpoche e, na sequência disso, tentar seguir o ensinamento de mestres como Sua Santidade o Dalai Lama, Kyabje Trülshik Rinpoche, Tulku Pema Wangyal Rinpoche e Jigme Khyentse Rinpoche.

2. Como caracteriza o Budismo e qual o seu objectivo?

O Dharma ou Via do Buda, conhecido no Ocidente como Budismo, consiste nos ensinamentos e métodos transmitidos pelo Buda Shakyamuni (566-486 a. C.) para que os seres reconheçam a sua própria natureza de Buda, um estado da mente livre de todos os obscurecimentos conceptuais e emocionais e no qual assim perfeitamente se manifestam todas as suas qualidades cognitivas e afectivas, nomeadamente a omnisciência, a visão da natureza última de todas as coisas e um amor e compaixão infinitos e imparciais por todos os seres.

A base do ensinamento do Buda Shakyamuni consiste na exposição das Quatro Nobres Verdades, segundo uma perspectiva terapêutica: 1 – o diagnóstico é o reconhecimento de que todas as experiências condicionadas são dukkha, termo que implica as noções de sofrimento, insatisfação, mal-estar, frustração e imperfeição; 2 – a etiologia consiste em indicar como causas de dukkha a ignorância, no sentido do desconhecimento da natureza última da mente e dos fenómenos, que leva à crença na percepção de uma separação e dualidade entre o sujeito e o objecto, o suposto eu e o mundo, e daí ao egocentrismo do desejo possessivo e da aversão; 3 – o remédio consiste no nirvana ou cessação do sofrimento por abolição das suas causas; 4 – a aplicação do remédio é a via que assume três aspectos: ética (não prejudicar nenhum ser vivo e fazer tudo para o bem de todos), meditação (libertar a mente de todos os conceitos e emoções negativas que a agitam, desenvolvendo uma atenção concentrada, calma e pacífica) e sabedoria (o conhecimento directo da natureza pura de todas as coisas e o viver em conformidade com isso, pondo a vida ao serviço do bem e da libertação de todos os seres).

Assumindo aspectos filosóficos e religiosos de acordo com as necessidades dos seres e das culturas onde se manifesta, o chamado Budismo é fundamentalmente uma via para curar e libertar a mente do facto de ser causadora de sofrimento para si e para os outros.

3. Quais são as principais correntes do Budismo?

Há muitas correntes no Budismo, mas todas se podem inserir nos chamados Três Veículos, correspondentes a diferentes ciclos do ensinamento do Buda, complementares entre si: o Hinayana, representado hoje pela escola Theravada, que põe a tónica na libertação individual; o Mahayana, que acentua a sabedoria da vacuidade do eu e dos fenómenos e o amor e compaixão universal, destacando a figura do Bodhisattva, aquele que deseja chegar ao estado de Buda para aí levar todos os seres; o Vajrayana, que parte da visão de que a natureza de Buda está presente em todas as coisas e combina a sabedoria e a compaixão na forma de meios mais rápidos de progresso espiritual, que podem levar ao despertar numa única vida. O Theravada, todavia, não aceita esta ideia dos Três Veículos.

4. Qual a importância da figura do Mestre no Budismo?

É muita, sobretudo no Mahayana e no Vajrayana, em que o mestre é visto como um Buda vivo e como a manifestação exterior do Mestre interior, que é a nossa própria natureza de Buda, a qual necessita de um espelho onde se reflectir, para que a reconheçamos. Sem um mestre, facilmente se cai em todo o tipo de auto-enganos espirituais, que em vez de nos libertarem nos levam a um reforço do ego e ao chamado materialismo espiritual. É contudo extremamente importante verificar se o mestre é autêntico e se vive de acordo com o que ensina, tal como é decisivo não cair numa devoção dualista, idólatra e cega. Mestre é aquele que nos liberta de toda a dualidade, inclusive da dualidade entre mestre e discípulo.

5. Encontra alguma relação entre o Yoga e o Budismo?

Segundo a tradição, o Buda, antes de atingir o Despertar, foi discípulo de dois mestres indianos, que lhe transmitiram os conhecimentos e práticas tradicionais de meditação e yoga, que ele dominou rapidamente, ao ponto de lhe ser proposto passar a ser o mentor daquelas comunidades. O Buda seguiu todavia a sua busca, pois não considerou haver encontrado naqueles estados meditativos a libertação que procurava para transmitir aos outros. No Budismo, sobretudo no Vajrayana, fala-se contudo de vários níveis de yoga, o que na via budista são outros tantos níveis de experiência não dualista da natureza primordial da mente, a qual se considera desde sempre desperta e iluminada.

6. Como sabe, Ahimsá - Não Violência – é um dos pilares éticos da filosofia do Yoga, e a instauração definitiva de uma Era de Paz o nosso grande objectivo. Qual poderá ser a contribuição do Budismo para a Paz Mundial?

Ahimsá é também um dos pilares éticos e meditativos do Budismo, que assume como princípio fundamental vigiarmos as nossas acções mentais, verbais e físicas de modo a que não só não sejam factores de sofrimento para nós e para todos os seres sencientes, humanos e não-humanos, mas se convertam ainda em causas da sua felicidade. Também desejamos a Paz no planeta e no universo e dedicamos toda a energia positiva das nossas acções e práticas para que isso aconteça e todos os seres sejam felizes. Estamos todavia convictos de que isso só pode acontecer se todos os seres fizerem o esforço individual por disciplinar e transformar as suas mentes e os seus pensamentos, palavras e acções e não consideramos que haja qualquer evolução necessária nesse sentido. Caso não haja esforço ético e espiritual, o mundo humano continuará a ser um mundo condicionado pelas ilusões, emoções e acções negativas, como acontece em todo o samsara, que abrange os mundos não-humanos, inclusive divinos. Enquanto não se transcender o samsara tudo é impermanente e não é possível haver Paz senão numa mente desperta, que se libertou da ilusão do eu e do não-eu, bem como de todos os conceitos e emoções decorrentes.


7. Como é vivido o Budismo em Portugal? Quer-nos falar um pouco das actividades da União Budista Portuguesa?

O Budismo está em franco crescimento em Portugal, tal como na Europa e no Ocidente em geral. A União Budista Portuguesa foi fundada em 1997 para reunir e federar as escolas budistas autênticas presentes no nosso país, sendo a representante oficial do Budismo perante o Estado e a sociedade portuguesa. Temos delegações de Norte a Sul, incluindo na Madeira, e promovemos o estudo e prática do Budismo convidando mestres das diferentes escolas e tradições, organizando seminários, conferências, cursos e retiros com eles e com instrutores com dezenas de anos de prática. Nesse sentido participámos na organização das duas vindas de Sua Santidade o Dalai Lama a Portugal, em 2001 e 2007. Damos aulas de yoga e meditação e organizamos cursos de introdução à meditação e à filosofia budista, que têm uma grande procura. Temos um grupo de tradução, responsável por versões portuguesas de vários textos clássicos budistas. Temos emissões regulares no programa “A Fé dos Homens”, na RTP 2 e agora também na rádio. Damos uma particular importância ao diálogo inter-religioso e assumimos com Sua Santidade o Dalai Lama o compromisso de tudo fazer em Portugal para o promover. Nessa linha, participamos num Encontro mensal de Meditação Inter-Religiosa, no qual praticantes de diferentes confissões e filosofias vivem em conjunto a experiência do silêncio. Muitos de nós participamos ainda individualmente em várias actividades de serviço social, como o apoio aos sem-abrigo, no âmbito de um projecto chamado CASA, que não se limita a budistas. Desenvolvemos também várias actividades em prol dos animais, como a libertação de marisco vivo. As nossas actividades podem ser consultadas em www.uniaobudista.pt

8. Depois de tantos anos de ocupação chinesa no Tibete, o que tem falhado e o que poderemos ainda fazer?

O que tem falhado é um efectivo apoio e solidariedade a nível dos governos em todo o mundo, que por motivos políticos e económicos continuam a apoiar a China e a sacrificar os direitos humanos. A via é continuar a divulgar as atrocidades cometidas pelas autoridades chinesas e a fazer pressão a nível da sociedade civil para que os nossos governos se coloquem não do lado dos carrascos mas das vítimas.

9. Como explica o facto do Budismo ter praticamente desaparecido da Índia, tendo sido essa região a pátria de Buda?

Há várias razões, desde a oposição do Budismo à organização social em castas, que gerou a reacção violenta das castas superiores, até às invasões islâmicas, que destruíram os grandes centros da cultura e espiritualidade budista, como a grande Universidade monástica de Nalanda, onde ensinaram sábios como Nagarjuna, destruída no final do século XII e que chegou a contar com 10 000 alunos e 1500 professores.


10. No seu entender, a eleição de Obama poderá contribuir para uma mudança decisiva do panorama económico, social, político e cultural a nível internacional? E como perspectiva o futuro dos seres humanos tal qual os vê hoje?

Sinceramente, não creio que uma mudança decisiva e um futuro melhor para o homem e o planeta possa vir de algum líder político instalado no sistema, por mais poderoso que seja, pois ninguém chega ao poder sem ter de fazer concessões aos grandes grupos de interesses político-económicos que regem o mundo. A alternativa real passa por não alimentarmos a ilusão que nos leva a esperarmos tudo dos outros, ou de um Salvador, por mais carismático que seja, assumindo antes a nossa responsabilidade – a sua e a minha, leitor – por sermos desde já essa diferença que queremos ver surgir no mundo. Tal qual os vejo hoje, os seres humanos, se não mudarem radicalmente, continuarão a ser o que sempre têm sido: seres iludidos e sofredores. Porém, se em vez de sonhos cor-de-rosa sobre o futuro do mundo, se decidirem a transformar-se realmente, então vejo-os como Budas em potência.

11. Quer-nos falar um pouco sobre o Partido Pelos Animais? Porquê esta necessidade de dar uma contribuição à causa pública? Terá o Budismo influenciado a sua decisão?

É óbvio que o Budismo não me podia deixar indiferente a um projecto de defender a natureza e todas as formas de vida senciente, humana e não-humana, embora o PPA não seja um partido budista. Estou convicto que urge, para bem do planeta, do homem e dos animais, mudarmos radicalmente a mentalidade especista que nos governa, semelhante à racista e sexista, que nos leva a considerar que o homem, por ter uma diferente forma de inteligência, tem o direito de instrumentalizar os animais, que experimentam emoções e sensações de dor e prazer como nós. A defesa da natureza e do bem-estar animal impõe-se hoje como o novo paradigma mental, ético e civilizacional. Disso depende a própria sobrevivência e dignidade da espécie humana. Como budista, não posso deixar de considerar que o modo como tratamos os animais resulta, pela lei da causalidade kármica, em graves problemas ambientais, sociais e de saúde para o ser humano.

12. Como concilia a sua actividade de filósofo, escritor, budista, político, professor e homem? Como vive o Budismo no seu dia a dia?

Com a sensação de falta de tempo, como é óbvio! (risos) Na verdade, sinto-as pessoalmente como complementares e inseparáveis, embora saiba conter cada uma dentro dos seus limites próprios, no que respeita à relação com os outros. Creio que todos nós somos multifuncionais e que temos a potencialidade de “ser tudo, de todas as maneiras”, como diziam Pessoa e Agostinho da Silva, com quem muito aprendi. Procuro levantar-me cedo, fazer uma sessão de meditação e levar para a vida quotidiana, além de uma mente centrada no aqui e agora, uma outra visão das coisas, a visão de todos os seres como manifestações do próprio Buda, de modo a que isso impregne todos os meus pensamentos, palavras e acções. Mas sou apenas alguém que tenta praticar isso, com muitas imperfeições, e que tem muito caminho pela frente.

13. Poderia propor aos nossos leitores uma pequena prática, acessível a todos?

Esqueçam tudo o que acabaram de ler, bem como todas as vossas ideias e preocupações. Endireitem a coluna e sintam o corpo e a respiração durante uns momentos. Depois observem os vossos pensamentos e emoções, sem os combater e sem se deixarem arrastar por eles. Não tentem esvaziar a mente. Observem apenas o que nela surge e logo se dissipa, como nuvens no céu. Permaneçam assim dois ou três minutos.
Pensem agora em alguém que realmente amam, mais incondicionalmente, com menos expectativas de reconhecimento ou retribuição. Pode ser alguém que já partiu desta vida. Sintam-no e, se possível, visualizem-no diante de vós. Sintam como seria bom se o pudessem libertar de tudo o que o possa fazer sofrer, agora e no futuro, e como seria bom oferecer-lhe tudo o que possa tornar feliz, a todos os níveis, para sempre. Comecem então a inspirar, docemente, sentindo que o estão a libertar de tudo o que haja de negativo, sob a forma de um fumo cinzento que converge para o centro do vosso coração, no meio do peito. Mal esse fumo vos toca, transforma-se em luz branca ou dourada e é essa luz que, na expiração, lhe oferecem, impregnando-o totalmente e levando-lhe toda a saúde, bem-estar e felicidade. Continuem assim, sem qualquer receio, transmutando toda a negatividade em luz. Após alguns momentos, incluam todos os seres na inspiração e na expiração, libertando-os de toda a negatividade, transmutando-a em luz e oferecendo essa luz a todo o universo, em todas as direcções. Finalmente, numa expiração, deixem-se dissolver nessa luz, que dissolve igualmente todas as coisas. E permaneçam nesse estado, luminoso, sem limites, para além de todos os conceitos e palavras. Antes que voltem os pensamentos habituais, dediquem mentalmente o que fizeram para o bem, a paz e a felicidade de todos os seres.

Integrem esta experiência na vossa vida quotidiana, recordando que tudo quanto vêem e percepcionam à vossa volta é manifestação dessa mesma luz. E sejam felizes!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010