quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Agati Sutta: fora do rumo

Agati Sutta: fora do rumo

Traduzido a partir da versão inglesa de

Thanissaro Bhikkhu, in


www.acesstoinsight.org

___

“Existem quatro vias que nos põem fora do rumo. Quais? Vamos fora do rumo através do desejo. Vamos fora do rumo através da aversão. Vamos fora do rumo através da delusão. Vamos fora do rumo através do medo. Estas são as quatro vias que nos põem fora do rumo"


"Se tu — pelo desejo,

aversão,

delusão,

medo —

transgredires o Dhamma,

a tua honra desvanece,

como no quarto minguante,

a lua.”


“Existem quatro vias que não nos põem fora do rumo. Quais? Não vamos fora do rumo através do desejo. Não vamos fora do rumo através da aversão. Não vamos fora do rumo através da delusão. Não vamos fora do rumo através do medo. Estas são as quatro vias que não nos põem fora do rumo."


"Se tu — pelo desejo,

aversão,

delusão,

medo —

não transgredires o Dhamma,

a tua honra resplandece,

como no quarto crescente,

a lua.”

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Poemas Tibetanos de Shabkar - I

Maravilha!
Atrás, as paredes rochosas
belas e maciças.
Diante, a neve sobre os cumes
da cadeia majestosa.
Nas quatro direcções espalha-se a bruma,
Surgem os arco-iris.

Traduzido do francês.
Traduzido para o francês por Matthieu Ricard.

"The only position from which you can never fall is the awakened state" - Dilgo Khyentse Rinpoche

"A única posição da qual nunca podes cair é o estado desperto"

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Uma saudação

No gume do instante

Abrem-se de par em par as portas do coração

É sem razão a razão de tudo

Tudo em tudo

Entrudo até no mais ínfimo desejo

E o mar é só o mar

Mais tudo o que lhe vem agarrado

Mesmo se distante

Não está fechado

Quem tem mente de viajante

"Não queiras mais que a gratuita lucidez / do instante sem caminho"

Não queiras mais que a gratuita lucidez
do instante sem caminho Não julgues que ele é mais
do que a casual aragem de não ser mais nada
do que o voluptuoso fluir de um puro vazio

Em distraído vagar como uma leve nuvem
torna-te vago também deixa ascender em ti
essa torre ténue que quer a transparência
e a graça flexível de pertencer ao ar

Não queiras conhecer o que há por trás desse fulgor puro
se é que há algo por trás Aceita a sua dádiva gratuita
porque ele é preciosamente nulo
e tão essencial como o ar que se respira

- António Ramos Rosa, As Palavras, Porto, Campo das Letras, 2001,p.32.

Da imensidade pacífica do mar, elevam-se as ondas agitadas. Da imensidade morta do tempo, destacam-se as horas vivas, que bailam em volta do sol, com os Anjos e Demónios.

Teixeira de Pascoaes

Tudo se autoliberta



Vós errais nesta existência por causa do bem e do mal:
Felicidade, infelicidade, condições elevadas e baixas, isso assemelha-se ao balde de água que sobe e desce num poço !
Ao longo dos três tempos, os seres extraviam-se nos três domínios samsáricos,
Atormentados pela doença de perseguir os conceitos nascidos da ignorância.
Que pena, todos estes seres para os quais não há princípio nem fim no tempo !

Kyé ho ! Tudo isso não é senão sonho e ilusão.
Em verdade, não há nem círculo vicioso nem alguém que ande às voltas.
Aí, onde tudo é livre desde sempre, é Samantabhadra.
Regozijai-vos, pois não há nem fundo, nem origem, nem substância.

Sem artifícios e originalmente pura, a natureza da mente
Não é afectada pelos fenómenos do mundo aparente, semelhantes aos reflexos num espelho.
Sem conceber objectos na esfera das percepções,
Nem imaginar um sujeito na mente que surge por si mesma,
A Sabedoria não dual emerge desta dupla compreensão,
Enquanto objectos e mente se manifestam como os seus incessantes ornamentos.

[...]

Kyé ho ! Amigos ! Samsara e nirvana não são nada mais que isso !
Todos os fenómenos são a manifestação do espaço e da natureza da mente.
Livre a base ! Livre a via ! Livre desde sempre o fruto !
Tudo se autoliberta e num jogo ilusório
Emergem percepções sem desígnios nem postulados particulares.
Tudo é assim. Deixai cair o vosso apego tenaz a um objectivo.
Ultimamente não há nem ilusão nem ilusionista;
Quando vos convencerdes de que não há meditação nem não-meditação,
Para quê tantas actividades e coisas a fazer ?
A respeito de todas as vossas percepções, não tereis mais nenhum apego ávido.
Sereis desprendidos, sem avidez, sem intenções nem parcialidade !
Sendo a ausência de “eu” vacuidade, a não-dualidade é espontaneamente presente.
Não permaneçais no samsara nem mesmo no nirvana !
É a intenção de todos os preceitos, dos sutras e dos tantras.

- Longchenpa [Tibete, 1308-1364(9), A liberdade natural da mente.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

HAKUIN ZENJI: Canção do Zazen

Poema do Dharma, por Hakuin Ekaku [1685 – 1768]

(Traduzido a partir da versão em inglês de Robert Aitken Roshi - Diamond Sangha Zen Buddhist Society, pela Delegação do Porto da UBP)

Todos os seres por natureza são Buda,
tal como o gelo por natureza é água;
à parte da água não há gelo,
à parte dos seres não há Buda.
Que pena as pessoas ignorarem o que está próximo
e procurarem a verdade no longínquo,
como alguém mergulhado na água
lamentando-se com sede,
ou uma criança de uma casa abastada
vagueando entre os pobres.
Perdidos nos caminhos sombrios da ignorância
vagueamos através dos seis mundos,
de caminho sombrio em caminho sombrio vagueamos,
quando estaremos livres do nascimento e da morte?
É por isto que o zazen do Mahayana
merece o mais alto apreço:
oferendas, preceitos, paramitas,
Nembutsu, expiação, prática –
as muitas outras virtudes –
todas brotam dentro do zazen.
Aqueles que tentam o zazen ainda que uma vez
limpam imensuráveis crimes –
onde estão então todos os caminhos sombrios?
A própria Terra Pura está próxima.
Aqueles que ouvem esta verdade ainda que uma vez
e a recebem com um coração grato,
estimando-a, venerando-a,
ganham bênçãos sem fim.
Quanto mais se tu te viras
e confirmas a tua própria natureza –
essa natureza é não natureza –
estás muito para lá de meros argumentos.
A unidade de causa e efeito é clara,
não dois, não três, o caminho é correctamente estabelecido;
com forma que é não forma,
indo e vindo – nunca perdido,
com o pensamento que é não pensamento,
cantar e dançar é a voz da Lei.
Ilimitado e livre é o céu do samadhi!
Brilhante a lua cheia da sabedoria!
Faltará porventura agora alguma coisa?
O nirvana é aqui, perante os teus olhos,
este próprio lugar é a Terra do Lótus,
este próprio corpo o Buda.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"As nuvens são as manifestações do céu"



- Estátua de Milarepa, Pango Chorten, Gyantse, Tibete.

Os Cantos de Milarepa
(excerto)

“A base não fabricada é a grande vacuidade,
A via não fabricada é a grande transparência,
O fruto não fabricado é o mahamudra.
O yogi possui estes três: base, via e fruto.
A jovem mulher quer possuir estes três: base, via e fruto ?”

Assim cantou Mila.

A jovem rapariga disse: “Se a base, a via e o fruto são assim,
Que segredos intrépidos tendes vós ?”

Em resposta Mila entoou este canto:

“A ausência de deuses e demónios é o segredo da visão,
A ausência de distracção e de meditação é o segredo da meditação,
A ausência de esperança e de temor é o segredo do fruto.
O yogi possui estes três segredos.
A jovem mulher quer realizar estes três segredos ?”

Assim cantou Mila.

Com uma grande fé, a jovem rapariga tocou os seus pés. Ela fez o pedido de instruções de meditação e ofereceu-lhe esta súplica:

“Ó Precioso Jetsun, ó Supremo yogi,
De dia estou ocupada pelo trabalho,
De noite, afundo-me no sono da ignorância.
De manhã à noite, sou escrava da comida e do vestuário,
Não há tempo para praticar o Dharma.
Peço um ensinamento para alcançar o estado de Buda,
Peço um ensinamento para alcançar a iluminação”

Assim cantou ela.

Em resposta, Jetsun entoou este canto
das quatro analogias e dos cinco significados:

“Ó jovem mulher Peldarbum,
Escuta, mulher afortunada, dotada de fé,
Ergue os olhos para o céu
E medita, livre de limites e de centro.
Ergue os olhos para o céu e a lua
E medita, livre de luminosidade e de obscuridade.
Contempla as montanhas
E medita, livre de mudança.
Contempla o lago
E medita, livre dos pensamentos discursivos”

Assim cantou Mila.

A jovem mulher, tendo meditado, ofereceu depois o exame da sua mente.

“Ó precioso Jetsun, ó Yogi supremo,
Posso meditar no céu
Mas, quando se erguem nuvens,
Como devo meditar ?
Posso meditar no sol e na lua
Mas, quando se movem planetas e estrelas,
Como devo meditar ?
Posso meditar nas montanhas
Mas, quando as árvores de fruto desabrocham,
Como devo meditar ?
Posso meditar no lago
Mas, quando surgem os pensamentos discursivos,
Como devo meditar ?

Assim cantou ela.

Jetsun entoou este canto para dissipar os seus obstáculos :

“Ó jovem mulher Peldarbum,
Escuta, mulher afortunada, dotada de fé,
Se podes meditar no céu,
As nuvens são as manifestações do céu,
Examina de novo estas manifestações,
Examina de novo a tua mente.
Se podes meditar no sol e na lua,
As estrelas e os planetas são manifestações do sol e da lua.
Examina de novo estas manifestações,
Examina de novo a tua mente.
Se podes meditar nas montanhas,
As árvores de fruto são manifestações da montanha.
Examina de novo estas manifestações,
Examina de novo a tua mente.
Se podes meditar na tua mente,
Os teus pensamentos discursivos são manifestações da tua mente.
Examina de novo a raiz dos pensamentos discursivos,
Examina de novo a tua mente”

Assim cantou Mila.

Tendo a jovem meditado, desenvolveram-se excelentes experiências; mais tarde o Mestre viu-a, cantou de novo e deu-lhe instruções orais nas quais ela meditou; tornou-se então uma yogini maravilhosa, detentora da linhagem oral.

- Milarepa, Tibete, 1040- ?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Caminho da Iluminação

Imagem retirada de Dharmanet


Não há vício pior que a raiva nem ascese comparável à paciência. Por isso, devemos cultivar ativamente a paciência pelos mais diversos meios.

A dor tem uma grande virtude; é um tal abalo que deita por terra a arrogância, desperta a compaixão pelos seres, faz recear os atos prejudiciais e desperta o amor pela virtude.

Se bastasse a todos os homens desejar para conseguir, ninguém sofreria, pois ninguém deseja o sofrimento.

Não nos irritamos com o pau, autor imediato das pancadas, mas com quem o maneja; ora, como este homem é manipulado pela raiva, é a raiva que é preciso odiar!

Se lhes devolvesse o mal que me fazem, tão pouco seriam salvos por isso; além disso, a minha prática espiritual seria corrompida e a minha ascese quebrada.

A mente imaterial de modo algum pode ser atingida; se ela é tocada pela dor física é por causa do seu apego ao corpo.

Perdoas ao maldizente quando vês que ele é influenciado por outros. Porque não perdoas a quem te critica se ele está sob a influência das emoções negativas?

Quando uma casa está ardendo, corremos à casa vizinha e retiramos a palha e as outras matérias inflamáveis onde o fogo possa pegar; da mesma maneira, todo o apego que possa atiçar o fogo da raiva deve ser logo eliminado, com medo que a nossa acumulação de méritos seja consumida.

Se uma desgraça acontece ao teu inimigo, por que te regozijas? Por muito negativos que os teus pensamentos sejam, não lhe podem causar qualquer dano e, mesmo que esta desgraça tivesse sido realizada por tua vontade, de que modo poderia ela dar-te felicidade? Se dizes "Como fiquei contente!", não há melhor maneira de provocares a tua ruína.

A minha mente parece uma criança gritando de desespero quando a onda leva o seu castelinho de areia, assim que a minha reputação e glória se arruínam.

"Mas o meu inimigo estorva as minhas boas obras!" Má desculpa para o ressentimento, pois não há ascese comparável à paciência e a ocasião de a praticar é oferta sua.

Um inimigo adquirido sem esforço é um tesouro que me surgiu em casa; muito caro me deve ser este auxiliar da minha carreira espiritual.

Ora, esta insigne parcela que faz germinar em nós as virtudes de um Buddha, está presente em todos os seres. É por causa desta presença que os seres devem ser reverenciados.

Ninguém com o corpo envolto em chamas é capaz de sentir qualquer forma de prazer. Também os compassivos, na presença do sofrimento dos seres, são incapazes de experimentar alegria.

Excertos do capítulo 6 do Bodhicharyavatara de Shantideva, sobre a paciência

A Escola Madhyamika ou «Via do Meio»


A experiência e compreensão da vacuidade, segundo a visão da escola Madhyamika ou «Via do Meio» - na esteira de Nagarjuna (sécs. I-II), o reputado mestre indiano da universidade monástica de Nalanda -, liberta a mente de toda a tese extrema, eternalista/essencialista ou niilista, que afirme uma entidade permanente e intrínseca nas coisas ou as considere absolutamente não existentes, emancipando-a de toda a opinião ou posição acerca da natureza das coisas, incluindo de si mesma, segundo as quatro possibilidades de pensar e dizer algo a respeito de algum objecto: que é, não é, é e não é, nem é nem não é. Assim se suspende o regime discursivo da avidez e apropriação conceptual, que troca o real por palavras e entificações: «Abençoada é a pacificação de todo o gesto de apreensão, a pacificação da proliferação das palavras e das coisas» [Nagarjuna]. A experiência directa, não conceptual, da vacuidade de tudo inclui a própria vacuidade, que não pode jamais ser entificada ou convertida numa nova perspectiva, consistindo antes no esvaziamento de todas elas (e assim no seu próprio auto-esvaziamento, não devendo sobreviver a si mesma, como posição substituta e alternativa das que se abandonam): «Os Vitoriosos proclamaram que a vacuidade é o facto de escapar a todos os pontos de vista. Quanto àqueles que fazem da vacuidade um ponto de vista, declararam-nos incuráveis» [Nagarjuna]. Como se sugere na primeira estância de Nagarjuna aqui citada, esta experiência tem um sentido libertador e soteriológico, que Shantideva aponta mais nitidamente: «Quando algo e a sua não existência/ Estão ambos ausentes da mente,/ Sem outra opção,/ Livre de conceitos, repousa perfeitamente».

Paulo Borges, «Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar» Vacuidade e Auto-criação do Sujeito em Fernando Pessoa in (Org.) Paulo Borges e Duarte Braga, O Buda e o Budismo no Ocidente e em Portugal, Lisboa, Ésquilo, 2007, pp-361-362

Imagem: www.rigpawiki.org/images/6/67/Buddhapalita.JPG

terça-feira, 27 de outubro de 2009

avisos

Observar o que está estabelecido e cingir-se às regras é prender-se sem uma corda.
Agir livremente ao sabor dos caprichos é fazer como os heréticos e os demónios.
Reconhecer a mente e purificá-la é o falso zen do sentar silencioso.
Dar-se rédea solta e ignorar as condições interrelacionadas é cair no abismo.
Estar alerta e sem ambiguidades é utilizar correntes e uma canga de ferro.
Pensar no bem e no mal pertence aos céus e aos infernos.
Ter uma visão de Buda e uma visão do Dharma é estar confinado a duas montanhas de ferro.
Aquele que apercebe um pensamento assim que este surge é alguém que esgota a sua energia.
Sentar-se inconsciente em quietude é a prática dos mortos.

Se avanças, afastas-te do princípio, se recuas, contrarias a Verdade.
Se nem avanças nem recuas, és um cadáver que respira.

Diz-me então – o que vais fazer?