segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O que é o Budismo?

O budismo é uma abordagem científica, religiosa, filosófica? É uma tradição, um sistema de psicologia, uma prática espiritual, um método de transformação da mente? Para mim ele é uma atitude perante a vida. Existem milhares de abordagens religiosas, filosóficas e psicológicas para nos ajudar a superar as dores e as dificuldades de nossas existências.A tradição budista, em especial, nos proporciona muitos guias eficazes a começar pelo próprio Buda que, renunciando a uma vida principesca, tomou de seu corpo e de sua mente e deles fez instrumento para a iluminação, ou seja, para se tornar espiritualmente livre.A tradição budista abarca um sistema até hoje irrefutável de psicologia e prática espiritual iniciada há cerca de seis séculos a.C. e desenvolvida ao longo de milhares de anos. Para o budismo é extremamente importante a maneira como encaramos as situações da vida diária enriquecendo a tecnologia do despertar com métodos que transformam nossas experiências e emoções com energias criativas aumentando nosso desenvolvimento espiritual e nos conduzindo aos mais elevados estados de consciência.É uma abordagem científica do trabalho que salienta a autoconsciência crítica nos levando a realizar todas as lições e conselhos espirituais à luz de nossa própria experiência e observação.No budismo a compreensão apenas como exercício intelectual não tem o menor valor a não ser que ela transforme nossa vida. Não é aprendizado e sim o reconhecimento da natureza da realidade o que nos leva ao ponto de vista de que o sofrimento existe porque somos ignorantes - no sentido de que já temos uma natureza pura e não sabemos - porque temos medo e necessidades. Assim condicionados, acreditamos que o alívio jaz fora de nós mesmos ignorando que a paz está dentro de nós. Se estamos onde estamos, fomos nós e não os outros que nos colocaram neste lugar. Logo, cabe a nós e a mais ninguém nos tirar desta situação.O Buda foi um sábio e um terapeuta para a mente e não um pregador religioso. Ele não foi um profeta, um messias. Não fundou nenhum credo ou religião. É atribuída ao Buda a afirmação de que não devemos aceitar algo porque é acreditado por muitas pessoas ou porque vem de algum livro. Ele estimulava o uso da própria compreensão, do discernimento após ponderação cuidadosa.A questão é que o que quer que alguém esteja tentando aprender, énecessário que tenha a experiência de modo direto em vez de extraí-la de livros ou de mestres ou apenas com a adaptação a um padrão já estabelecido. O Buda se propôs a não aceitar nada que não tivesse primeiro descoberto por si mesmo. Não se trata da tentativa de obter ajuda de nenhuma outra pessoa, mas sim de descobrir por si próprio.Todos estes conceitos, ideias, esperanças, receios, emoções e conclusões são criados a partir de nosso pensamentos especulativos, das nossas heranças psicológicas, da nossa educação e assim por diante. Tendemos apenas a colocá-los todos juntos, o que é causado, em parte, é evidente, pela falta de qualificação do nosso sistema educacional. Dizem-nos o que pensar em vez de nos ensinarem como realizar buscas verdadeiras em nosso íntimo.O importante é transcendermos o padrão de conceitos mentais que formamos. Dessa forma, é necessário introduzir a idéia da conscientização. Podemos então nos indagar todas as vezes e podemos ir al´me de meras opiniões e das supostas conclusões de bom-senso. Temos de aprender a ser cientistas qualificados e a não aceitarmos nada. Tudo deve ser vista através do nosso próprio microscópio e temos que chegar às nossas próprias conclusões e do nosso modo. Até que façamos isso, não há Salvador, nem Guru, nem bênçãos e orientação que possam servir de auxílio.A questão como um todo, então, é que devemos ver com nossos próprios olhos e não aceitar nenhuma tradição apresentada como se ela possuísse algum poder mágico inerente. Não existe nada mágico que possa nos transformar de um momento para o outro. No entanto, como temos uma mente mecanizada, sempre procuramos por algo que funcione a um leve aperto de um botão. Existe uma grande atração pelo atalho e, se existir algum método de profundidade que ofereça um caminho rápido, preferiremos segui-lo a suportar jornadas árduas e práticas difíceis. Seja na prática da meditação ou na vida do dia-a-dia, existe a tendência de sermos impacientes.Buda nunca alegou ser uma encarnação de Deus ou qualquer tipo de divindade. Era apenas um simples ser humano que tinha passado por certas coisas e que tinha alcançado o estado de vigília da mente. É possível, pelo menos parcialmente, para qualquer um de nós fazer esta experiência.
Para bem de todos os seres.
Cumprimentos João Miguel Teodoro

cortar cabelo

2010 - bons dias para cortar o cabelo segundo a astrologia tibetana

Fevereiro
22 \ 24     --- dias muito bons   

17  \ 18 ------- dias bons

Bom Losar.







Mahakala

Mahakala era a deidade tutelar pessoal do dirigente mongol Kublai Khan. Suas imagens aterradoras em última instancia, deriva da forma irada dos deuses hindus Shiva, conhecido como Bhairava. Na iconografía tibetana normalmente tem uma cabeça com tres olhos saltados. Suas sobrancelhas são como pequenas chamas, e a sua barba é em forma de ganchos. Ele pode ter de dois a seis braços. Mahakala se mostra aqui em sua forma de seis braços. Seus três olhos significam seu poder de compreender o passado, presente e futuro. As cinco caveiras de sua coroa representam os cinco venenos mentais que adormentam nossa existência mortal. São a ira, o desejo, a ignorância, a inveja e o orgulho. Seus seis braços seguram vários objetos simbólicos: A primeira mão direita tem uma faca curva. Na simbologia de Mahakala os cortes da faca curva cortam a vida através das veias dos inimigos quebradores de juramento e obstaculizam os espíritos perturbadores, o crânio utilizado como uma copa tem a função de fazer carne picada dos corações, intestinos, pulmões e veias dos inimigos hostis do Dharma, uma mão uma faca similar em forma de meia lua utilizada na cozinha oriental para cortar carne e verduras em forma de dados. Uma serpente enroscada ao redor do pescoço pode ser a serpente que participa do conteúdo da copa de crânio. Assim como o dorje (raio) habitualmente fica junto com o sino, também a faca curva e a copa de crânio se acompanham. O simbolismo dos dois pares pode ser o mesmo, dado que o instrumento que corta através do nevoeiro da ignorância, representa o método, o princípio masculino, enquanto que a copa simboliza a sabedoria, o princípio feminino. Em muitos sentidos, o instrumento que corta tem o mesmo propósito que o Dorje e a Purbha que se empregam nos rituais.A mão direita seguinte segura um damaru. Seu som significa o som primordial do qual se conta que se originou toda a sua existência manifestada. A mão direita de cima tem um rosário de crânios. A disposição contínua do rosário é um símbolo da atividade permanente, que Mahakala alcança numa escala cósmica. As outras duas mãos esquerdas tem um tridente e um laço respectivamente. O laço é para laçar os que se desviaram do caminho do Dharma, enquanto o tridente representa as Três Jóias do budismo: o Buda, o Dharma e a Sangha. A perna esquerda se estica e a direita se dobra enquanto pisoteia um elefante. O elefante aqui é um símbolo dos obstáculos e, portanto, Mahakala pisoteia todos os obstáculos no caminho do Dharma. Ele está de pé sobre um disco de sol que significa a iluminação que, por sua vez, descansa sobre um loto totalmente aberto que simbolizam a pureza imaculada.

Why the Dalai Lama Matters

Excelente trabalho sobre Sua Santidade.
Espero que este ano que agora começa vos traga calor no coração e muita paz.
Tudo de bom e bom ano do Tigre.




http://www.youtube.com/watch?v=ySsJUr1sMU8

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Namasté

Olá a todos,
tenho como nickname zick mas de facto só sou o João Miguel Teodoro.
Vou começar a minha contribuição com este pensamento retirado da conversa entre dois pombos:
"....seja como for, não te preocupes demasiado, porque um eclipse do sol é tão somente um desaparecimento temporário....."

Muita luz para todos

Para o bem de todos os seres.

Até breve!

Chamam-me João Miguel Teodoro

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Poesia do Dharma: W. H. Auden, uma reflexão sobre o Haiti e o sofrimento humano

Por Paul Griffin

Por causa do terramoto no Haiti tenho tido presente, na minha mente, o sofrimento humano.
Hoje, eu quero partilhar convosco um poema de W. H. Auden, que aborda o tema do sofrimento. Há já algum tempo que não coloco no blogue um post com Poesia do Dharma e, ainda que não considere Auden um escritor particularmente dharmico, sinto que este poema - “Musée des Beaux Arts” – toca habilmente num ponto-chave da questão de como podemos começar a trabalhar com o sofrimento dos nossos semelhantes: prestando atenção a esse sofrimento.

“Musée des Beaux Arts” foi inspirado nas pinturas de Bruegel, especialmente no seu Ícaro (abaixo), que Auden terá visto quando visitou Bruxelas em 1940.


Sobre o sofrimento eles nunca se enganaram,

Auden começa por atribuir aos Velhos Mestres da pintura um correcto conhecimento acerca do sofrimento, especificamente a sua “posição humana”. Auden acreditava que o sofrimento tinha a sua “posição” correcta na experiência humana, uma experiência que também incluía alegria, medo, e amor, etc. De facto, não estou certo sobre o que Auden teria pensado da primeira nobre verdade – que toda a vida é sofrimento. Ele poderia ter considerado uma tal formulação demasiado simplista, demasiado redutora. Auden estava mais centrado na natureza inter-relacionada da experiência humana, da qual o sofrimento era meramente um aspecto mas, na verdade, um aspecto central (talvez o aspecto central – tenho ouvido dizer que todos os poemas de Auden mostram vestígios de lágrimas secas).

Os Velhos Mestres; quão bem eles entenderam
A posição humana do sofrimento; como ele acontece
Enquanto outros estão a comer, a abrir uma janela ou, apenas, num monótono caminhar;


Reparem como este verso, também ele, se limita a um balouçar suspenso por detrás dos outros. O sofrimento acontece enquanto o resto da vida continua, enquanto o resto de nós vai verificar o seu email, ou jantar, ou ver a TV. Enquanto toda a repetitiva monotonia da vida continua aqui, nos Estados Unidos, aqueles que estão no Haiti sofrem.

Como, quando os idosos estão à espera, reverente e apaixonadamente,
Do nascimento milagroso, existirão sempre
Crianças que não desejaram especialmente que ele acontecesse, patinando
Num pequeno lago na orla do bosque;


Nem mesmo o nascimento de Cristo é um acontecimento sobre o qual toda a humanidade se pode focar. É que, simplesmente, não está dentro das nossas capacidades concentrar a nossa atenção em qualquer acontecimento único. Haverá sempre crianças a patinar em pequenos lagos ou a ouvirem os seus iPods.

Eles nunca esqueceram

“Eles”, aqui, são os mestres pintores que sabem que, mesmo em momentos de grande tragédia, tal como o Massacre dos Inocentes no Novo Testamento, quando o rei da Judeia, Herodes o Grande, ordenou a matança de milhares de crianças em Belém, a vida continua ou, usando a terrível frase de Auden, “os cães continuam com a sua vida de cachorros”. Auden está a pensar na pintura de Bruegel O Massacre dos Inocentes, ao escrever os versos que se seguem:

Que mesmo o terrível martírio deve seguir o seu curso
De qualquer forma, algures num canto, um qualquer sítio sujo
Onde os cães continuam com a sua vida de cachorros e o cavalo do torturador
Coça o seu inocente traseiro numa árvore.


Depois, nos últimos oito versos, Auden centra-se intensamente no Ícaro de Bruegel - como o lavrador e o pastor não prestam qualquer atenção à tragédia de um rapaz que cai do céu, numa clara referência ao mito de Ícaro que voou demasiado perto do sol, as suas asas derreteram-se e ele caiu a prumo para a terra. Entretanto, o “navio caro e delicado” e o seu capitão continuam calmamente a navegar, pois têm de estar nalgum outro lugar. Nem mesmo a própria natureza pode prestar uma atenção especial à tragédia de Ícaro: “o sol brilhou/ como tinha de brilhar”.

No Ícaro de Bruegel, por exemplo: como tudo se afasta
Muito tranquilamente do desastre: o lavrador pode
Ter ouvido o barulho da queda na água, o grito desamparado,
Mas para ele não foi um desaire importante; o sol brilhou
Como tinha de brilhar sobre as pernas brancas que desapareciam nas verdes
Águas; e o caro e delicado navio que deve ter visto
Algo fantástico, um rapaz caindo do céu,
Tinha de chegar algures e continuou tranquilamente o seu navegar.


Não creio que, aqui, a intenção de Auden seja didáctica; por outras palavras, eu não o ouço, necessariamente, a chamar-nos a atenção para a queda de Ícaro. Ao contrário, no seu poema Auden está, simplesmente, a descrever como as coisas são. Grandes tragédias acontecem a alguns de nós, enquanto todos os outros estão ocupados. É assim que funciona o sofrimento humano; é esta a sua “posição” na vida humana.

Dito isto, eu senti que ler este poema e olhar para esta pintura foi algo que me ajudou a dirigir a minha atenção, uma vez mais, para o Haiti, para aqueles que lá sofrem diariamente e de uma forma terrível. O poema de Auden é um lembrete para eu olhar, quando alguém se está a afogar. Para ajudar. Para doar. E para, no mínimo, prestarmos atenção, para mantermos nas nossas mentes e nos nossos corações estes companheiros, homens e mulheres em sofrimento e, dessa forma, orarmos por eles.

(texto original em inglês, em: http://blog.beliefnet.com/onecity/author/paul-griffin-1/2010/01/index.html )

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Temos que ser budistas para meditar?


Meditar é essencialmente treinar a mente. A finalidade da meditação é desenvolver qualidades como amorosa compaixão e a atenção, bem como a compreensão correcta da realidade. Durante 2500 anos os budistas utilizaram a meditação para eliminar a ignorância e as toxinas mentais, ou seja, as emoções destrutivas que são a principal causa do sofrimento.

Seguir o caminho budista permite-nos utilizar plenamente o conhecimento e experiência adquiridos por aqueles que, como o Buda, têm despertado do sonho da ignorância. No entanto, o conhecimento que vem da ciência contemplativa, que é precisamente a definição deBudismo, é valioso para todas as pessoas de qualquer religião ou cultura, sem excepção. Todos nós temos uma mente, somos todos presas de diferentes emoções e todos passamos por muitas formas de sofrimento.

O treino permite-nos transformar a nossa mente, superar as emoções destrutivas e dissipar o sofrimento. Os numerosos e profundos métodos que o Budismo desenvolveu ao longo dos séculos podem ser incorporados e usados por qualquer pessoa. O que é necessário é entusiasmo e perseverança. A meditação tem um valor universal: seria uma pena perder a oportunidade de treinar as nossas mentes.

Matthieu Ricard

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Retiro "As Cinco Energias de Sabedoria" com Lama Wangmo

20 e 21 de Fevereiro na sede da União Budista Portuguesa


As Cinco Energias de sabedoria, ou famílias de buda, exprimem a vitalidade fundamental da existência. Elas constituem e revelam a interrelação entre mandala interior e mandala exterior. Quando nos fechamos numa atitude egocentrada, as energias exprimem-se como emoções intensas e confusas. Porém, quando nos abrimos, estas mesmas energias são a manifestação do potencial de sabedoria e de despertar e podemos então beneficiar das suas qualidades.

Durante estes 2 dias, seremos convidados a reconhecer a textura particular da nossa experiência através das cinco famílias de buda e a transformar as emoções em energias de despertar.


Mais informações em www.SanghaRimayLusofona.net/wangmo2010.html

Contactos: SanghaRimayLusofona@gmail.com

(+351) 933 284 587

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Uma declaração budista sobre as alterações climáticas

Esta declaração resulta dos contributos de cerca de vinte mestres de todas as tradições budistas que participaram na redacção da obra A Buddhist Response to the Climate Emergency (Uma resposta budista à emergência climática, Wisdom Publications, 2009).

O texto intitulado «Chegou o momento de agir» (tradução da versão original em língua inglesa The Time to Act is Now) de inspiração pan-budista, foi redigido por David Tetsuun Loy (mestre zen) e pelo venerável Bhikkhu Bodhi (mestre da tradição Theravada), contando ainda com a contribuição científica do Dr. John Stanley. Esta declaração tem como seu primeiro subscritor o Dalai Lama. Convidamos todos os membros da comunidade budista internacional preocupados com esta questão a lerem este documento e a juntarem a sua voz, subscrevendo-o.

Chegou o momento de agir

Uma declaração budista sobre as alterações climáticas


Vivemos hoje numa época de grave crise, confrontados com os desafios mais sérios que a humanidade alguma vez experimentou: consequências ecológicas do nosso karma colectivo. A constatação unânime dos cientistas é esmagadora: as actividades humanas estão em vias de provocar um desastre ecológico à escala planetária. O aquecimento global, em particular, está a acelerar-se a um ritmo mais rápido do que se previa, sendo hoje patente no Pólo Norte. Durante centenas de milhares de anos, o Oceano Árctico esteve coberto por uma camada de gelo tão vasta como a Austrália que se encontra actualmente em rápido desaparecimento. Em 2007, o Grupo Intergovernamental de Especialistas em Evolução Climática (GIEC) previu que, por volta de 2100, o derretimento estival dos gelos seria total, mas é hoje evidente que corremos o risco de isso vir a suceder dentro de uma ou duas décadas. A vasta extensão de gelo da Gronelândia está também a derreter mais rapidamente do que se previra. O nível do mar vai aumentar pelo menos um metro ao longo deste século, o que provocará a inundação de inúmeras zonas costeiras, assim como de importantes áreas cultivadas de rizicultura de vital importância como o Delta do Mekong, no Vietname. Por todo o mundo, os glaciares diminuem velozmente. Se as políticas económicas actuais não mudarem, os glaciares do planalto tibetano, que alimentam os grandes rios que fornecem água a milhões de pessoas na Ásia, desaparecerão nos próximos trinta anos.
A Austrália e o Norte da China sofrem neste momento graves períodos de seca e uma diminuição das colheitas. Importantes relatórios, como o do GIEC, das Nações Unidas, da União Europeia e da União Internacional para a Conservação da Natureza, concordam em afirmar que, sem uma mudança de orientação colectiva, a diminuição das reservas de água e dos recursos alimentares, poderá provocar, entre outras consequências, situações de fome, conflitos motivados pela disputa dos recursos, assim como migrações maciças até meados do século – porventura, mesmo, até 2030, segundo o primeiro conselheiro científico do governo britânico.

O aquecimento global desempenha um papel essencial em outras crises ecológicas, como o desaparecimento de numerosas espécies vegetais e animais que partilham a Terra connosco. Os oceanógrafos assinalam que metade das emissões de carbono devidas à utilização de combustíveis fósseis já terá sido absorvida pelos oceanos, o que aumentou a sua taxa de actividade em cerca de 30%. Esta acidificação perturba a calcificação das conchas e dos recifes de coral, ameaçando o desenvolvimento do plâncton, base da cadeia alimentar da maioria das espécies que povoam os oceanos.
Os relatórios das Nações Unidas concordam com as tomadas de posição de eminentes biólogos que afirmam que a continuação da actual política de cegueira voluntária levará à extinção de cerca de metade das espécies terrestres actualmente existentes. Estamos a transgredir, colectivamente, o primeiro dos preceitos: “Não prejudicar os seres vivos”, e estamos a fazê-lo na maior escala possível. Somos incapazes de antecipar o impacto biológico sobre a vida humana que será provocado pelo desaparecimento desta infinidade de espécies que, imperceptivelmente, também contribuem para o nosso próprio bem-estar.

Muitos cientistas chegaram já à conclusão de que está hoje em causa a sobrevivência da própria civilização humana. Atingimos um momento crucial da nossa evolução biológica e social. Nunca na história a necessidade do contributo do budismo para o bem de todos os seres se impôs com tamanha urgência. Por intermédio das quatro nobres verdades dispomos de um quadro que permite traçar um diagnóstico sobre a nossa situação actual e, assim, definir as grandes linhas de uma solução: as ameaças e catástrofes que nos assombram provêm em última instância do espírito humano, pelo que exigem uma fundamental mutação do nosso espírito. Se o sofrimento individual nasce da sede e da ignorância (dos três venenos: a avidez, o ódio e a ilusão), o mesmo sucede quanto ao sofrimento que experimentamos à escala colectiva. A urgência ecológica actual confronta-nos com o eterno sofrimento humano, de uma forma desmultiplicada. Nós sofremos como indivíduos mas também como género, de um si que se vê como separado não só dos outros mas também da própria Terra. Como diz Thich Nhat Hanh: «Nós estamos aqui para despertar da ilusão da nossa separação». Devemos acordar e compreender que a Terra é tanto nossa mãe como nossa casa. Desde logo, o cordão umbilical que a ela nos liga não pode ser cortado. Se a terra adoece, nós também adoecemos porque somos parte integrante dela. As nossas actuais relações económicas e tecnológicas com a biosfera não são viáveis. A fim de sobreviver às duras transformações que se avizinham, os nossos modos de vida e as nossas expectativas devem mudar. Isto supõe não só novos comportamentos, mas também novos valores. O ensinamento budista segundo o qual a saúde global das pessoas e da sociedade depende do bem-estar interior, e não apenas de indicadores económicos, permite-nos definir as transformações pessoais e sociais que devemos empreender.
No plano individual, devemos adoptar comportamentos que manifestem a nossa consciência ecológica no quotidiano, reduzindo assim a nossa pegada de carbono. Para aqueles que vivem em economias desenvolvidas, isto implica modernizar e isolar as casas e os lugares de trabalho para obter um melhor rendimento energético; reduzir o aquecimento no Inverno e o ar condicionado no Verão; utilizar lâmpadas e electrodomésticos de baixo consumo; desligar os aparelhos eléctricos que não estão em uso; conduzir viaturas que consumam o menos possível; diminuir o consumo de carne, favorecendo uma alimentação vegetariana, mais saudável e mais respeitadora do ambiente.

Estas iniciativas individuais, todavia, por si sós, não são suficientes para evitar futuras catástrofes. Devemos igualmente empreender transformações institucionais, no plano tecnológico e no plano económico. Logo que possível, devemos “descarbonar” as nossas produções energéticas, substituindo as energias fosseis por fontes de energia renováveis que são ilimitadas, inofensivas e que estão em harmonia com a natureza. Devemos particularmente parar com a construção de novas centrais a carvão, uma vez que esta é, de longe, a fonte mais poluente e mais perigosa de emissões de carbono na atmosfera. Inteligentemente exploradas, as energias eólica, solar, marmotriz e geotérmica poderiam fornecer toda a electricidade de que necessitamos sem prejudicar a biosfera. Cerca de um quarto das emissões de carbono mundiais são devidas à desflorestação, pelo que deveremos inverter o processo de destruição das florestas, em particular a cintura das florestas tropicais onde vive a maior parte das espécies animais e vegetais.

Torna-se hoje evidente que é igualmente necessário proceder a alterações significativas na organização do nosso sistema económico. O aquecimento global encontra-se estreitamente ligado às monstruosas quantidades de energia que as nossas indústrias devoram a fim de dar resposta aos níveis de consumo que correspondem às expectativas de tantos de entre nós. De um ponto de vista budista, uma economia sã e duradoura deve reger-se pelo princípio da suficiência: a chave da felicidade encontra-se na satisfação e não numa multiplicação crescente de bens e produtos. O comportamento compulsivo que leva a um consumo crescente é expressão de sede, aquela disposição que o Buda identificou como sendo a principal causa do sofrimento.
No lugar de uma economia submetida à lei do lucro que requer um crescimento ilimitado para não falhar, devíamos fazer evoluir o mundo em direcção a uma economia que promovesse um nível de vida satisfatório para todos, permitindo-nos assim desenvolver as nossas plenas potencialidades (incluindo as espirituais) em harmonia com a biosfera, que sustenta e nutre todos os seres, onde se incluem também as gerações futuras. Se os dirigentes políticos não são capazes de reconhecer a urgência desta crise mundial ou se ele não estão dispostos a considerar o bem estar a longo prazo da humanidade acima dos benefícios de curto prazo das companhias que exploram os combustíveis fosseis, talvez seja necessário que os contestemos mediante o desencadear de campanhas persistentes de acção cívica.

Diversos climatologistas, como o Dr. James Hansen, da NASA, definiram recentemente objectivos precisos a fim de evitar que o aquecimento global atinja um limiar crítico catastrófico. Para que a civilização humana seja viável, a taxa aceitável de dióxido de carbono na atmosfera deve ser inferior a 350 ppm (partes por milhão). O cumprimento deste objectivo é recomendado e apoiado pelo Dalai Lama, assim como por outras personalidades agraciadas com o Prémio Nobel e por prestigiados cientistas. Na situação actual encontramo-nos nos 387 ppm, nível que aumenta ao valor de 2 ppm por ano.

É assim necessário não só reduzir as emissões de carbono mas também eliminar a excessiva quantidade de dióxido de carbono já presente na atmosfera.
Enquanto signatários desta declaração de princípios budista, nós reconhecemos o desafio urgente que o aquecimento global coloca. Juntamo-nos ao Dalai Lama para apoiar o objectivo dos 350 ppm. De acordo com os ensinamentos budistas, e conscientes da nossa responsabilidade individual e colectiva, comprometemo-nos a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para atingir esse objectivo, nomeadamente (mas não só) através das acções individuais e sociais aqui sucintamente indicadas.
Dispomos apenas de um curto espaço de tempo para agir, para preservar a humanidade de uma catástrofe iminente e para assegurar a sobrevivência das diversas e belas formas de vida terrestres. As futuras gerações e as outras espécies que partilham a nossa biosfera, não têm voz para nos pedir que demonstremos a nossa compaixão, sabedoria e poder de decisão. Devemos escutar o seu silêncio. E devemos também ser a sua voz e agir em seu nome.

Para subscrever a declaração:

http://www.ecobuddhism.org/350_target/350_target/buddhist_declaration_on_climate_change___french/

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Entrevista

Publico a entrevista que dei ao nº1 da revista Om Yess (Dezembro de 2009), enquanto presidente da União Budista Portuguesa:

1. Pode falar-nos um pouco sobre o seu percurso de vida e como é que ele o conduziu ao Budismo?

Por um lado, tive a felicidade de ter um pai que se interessava por yoga e espiritualidade e que desde cedo me deu livros interessantes para ler e me ensinou técnicas de relaxação. Por outro, desde pequeno tive a convicção absoluta de já ter existido antes desta vida e de ir continuar a existir depois dela. Até que, após uma adolescência turbulenta, em busca do sentido da existência, e de um curso de Filosofia que me mostrou as limitações do mero conhecimento intelectual, acabei por descobrir o yoga, a meditação e o budismo num centro budista tibetano, em Lisboa. Isso possibilitou-me conhecer e receber ensinamentos e iniciações de um mestre como Dilgo Khyentse Rinpoche e, na sequência disso, tentar seguir o ensinamento de mestres como Sua Santidade o Dalai Lama, Kyabje Trülshik Rinpoche, Tulku Pema Wangyal Rinpoche e Jigme Khyentse Rinpoche.

2. Como caracteriza o Budismo e qual o seu objectivo?

O Dharma ou Via do Buda, conhecido no Ocidente como Budismo, consiste nos ensinamentos e métodos transmitidos pelo Buda Shakyamuni (566-486 a. C.) para que os seres reconheçam a sua própria natureza de Buda, um estado da mente livre de todos os obscurecimentos conceptuais e emocionais e no qual assim perfeitamente se manifestam todas as suas qualidades cognitivas e afectivas, nomeadamente a omnisciência, a visão da natureza última de todas as coisas e um amor e compaixão infinitos e imparciais por todos os seres.

A base do ensinamento do Buda Shakyamuni consiste na exposição das Quatro Nobres Verdades, segundo uma perspectiva terapêutica: 1 – o diagnóstico é o reconhecimento de que todas as experiências condicionadas são dukkha, termo que implica as noções de sofrimento, insatisfação, mal-estar, frustração e imperfeição; 2 – a etiologia consiste em indicar como causas de dukkha a ignorância, no sentido do desconhecimento da natureza última da mente e dos fenómenos, que leva à crença na percepção de uma separação e dualidade entre o sujeito e o objecto, o suposto eu e o mundo, e daí ao egocentrismo do desejo possessivo e da aversão; 3 – o remédio consiste no nirvana ou cessação do sofrimento por abolição das suas causas; 4 – a aplicação do remédio é a via que assume três aspectos: ética (não prejudicar nenhum ser vivo e fazer tudo para o bem de todos), meditação (libertar a mente de todos os conceitos e emoções negativas que a agitam, desenvolvendo uma atenção concentrada, calma e pacífica) e sabedoria (o conhecimento directo da natureza pura de todas as coisas e o viver em conformidade com isso, pondo a vida ao serviço do bem e da libertação de todos os seres).

Assumindo aspectos filosóficos e religiosos de acordo com as necessidades dos seres e das culturas onde se manifesta, o chamado Budismo é fundamentalmente uma via para curar e libertar a mente do facto de ser causadora de sofrimento para si e para os outros.

3. Quais são as principais correntes do Budismo?

Há muitas correntes no Budismo, mas todas se podem inserir nos chamados Três Veículos, correspondentes a diferentes ciclos do ensinamento do Buda, complementares entre si: o Hinayana, representado hoje pela escola Theravada, que põe a tónica na libertação individual; o Mahayana, que acentua a sabedoria da vacuidade do eu e dos fenómenos e o amor e compaixão universal, destacando a figura do Bodhisattva, aquele que deseja chegar ao estado de Buda para aí levar todos os seres; o Vajrayana, que parte da visão de que a natureza de Buda está presente em todas as coisas e combina a sabedoria e a compaixão na forma de meios mais rápidos de progresso espiritual, que podem levar ao despertar numa única vida. O Theravada, todavia, não aceita esta ideia dos Três Veículos.

4. Qual a importância da figura do Mestre no Budismo?

É muita, sobretudo no Mahayana e no Vajrayana, em que o mestre é visto como um Buda vivo e como a manifestação exterior do Mestre interior, que é a nossa própria natureza de Buda, a qual necessita de um espelho onde se reflectir, para que a reconheçamos. Sem um mestre, facilmente se cai em todo o tipo de auto-enganos espirituais, que em vez de nos libertarem nos levam a um reforço do ego e ao chamado materialismo espiritual. É contudo extremamente importante verificar se o mestre é autêntico e se vive de acordo com o que ensina, tal como é decisivo não cair numa devoção dualista, idólatra e cega. Mestre é aquele que nos liberta de toda a dualidade, inclusive da dualidade entre mestre e discípulo.

5. Encontra alguma relação entre o Yoga e o Budismo?

Segundo a tradição, o Buda, antes de atingir o Despertar, foi discípulo de dois mestres indianos, que lhe transmitiram os conhecimentos e práticas tradicionais de meditação e yoga, que ele dominou rapidamente, ao ponto de lhe ser proposto passar a ser o mentor daquelas comunidades. O Buda seguiu todavia a sua busca, pois não considerou haver encontrado naqueles estados meditativos a libertação que procurava para transmitir aos outros. No Budismo, sobretudo no Vajrayana, fala-se contudo de vários níveis de yoga, o que na via budista são outros tantos níveis de experiência não dualista da natureza primordial da mente, a qual se considera desde sempre desperta e iluminada.

6. Como sabe, Ahimsá - Não Violência – é um dos pilares éticos da filosofia do Yoga, e a instauração definitiva de uma Era de Paz o nosso grande objectivo. Qual poderá ser a contribuição do Budismo para a Paz Mundial?

Ahimsá é também um dos pilares éticos e meditativos do Budismo, que assume como princípio fundamental vigiarmos as nossas acções mentais, verbais e físicas de modo a que não só não sejam factores de sofrimento para nós e para todos os seres sencientes, humanos e não-humanos, mas se convertam ainda em causas da sua felicidade. Também desejamos a Paz no planeta e no universo e dedicamos toda a energia positiva das nossas acções e práticas para que isso aconteça e todos os seres sejam felizes. Estamos todavia convictos de que isso só pode acontecer se todos os seres fizerem o esforço individual por disciplinar e transformar as suas mentes e os seus pensamentos, palavras e acções e não consideramos que haja qualquer evolução necessária nesse sentido. Caso não haja esforço ético e espiritual, o mundo humano continuará a ser um mundo condicionado pelas ilusões, emoções e acções negativas, como acontece em todo o samsara, que abrange os mundos não-humanos, inclusive divinos. Enquanto não se transcender o samsara tudo é impermanente e não é possível haver Paz senão numa mente desperta, que se libertou da ilusão do eu e do não-eu, bem como de todos os conceitos e emoções decorrentes.


7. Como é vivido o Budismo em Portugal? Quer-nos falar um pouco das actividades da União Budista Portuguesa?

O Budismo está em franco crescimento em Portugal, tal como na Europa e no Ocidente em geral. A União Budista Portuguesa foi fundada em 1997 para reunir e federar as escolas budistas autênticas presentes no nosso país, sendo a representante oficial do Budismo perante o Estado e a sociedade portuguesa. Temos delegações de Norte a Sul, incluindo na Madeira, e promovemos o estudo e prática do Budismo convidando mestres das diferentes escolas e tradições, organizando seminários, conferências, cursos e retiros com eles e com instrutores com dezenas de anos de prática. Nesse sentido participámos na organização das duas vindas de Sua Santidade o Dalai Lama a Portugal, em 2001 e 2007. Damos aulas de yoga e meditação e organizamos cursos de introdução à meditação e à filosofia budista, que têm uma grande procura. Temos um grupo de tradução, responsável por versões portuguesas de vários textos clássicos budistas. Temos emissões regulares no programa “A Fé dos Homens”, na RTP 2 e agora também na rádio. Damos uma particular importância ao diálogo inter-religioso e assumimos com Sua Santidade o Dalai Lama o compromisso de tudo fazer em Portugal para o promover. Nessa linha, participamos num Encontro mensal de Meditação Inter-Religiosa, no qual praticantes de diferentes confissões e filosofias vivem em conjunto a experiência do silêncio. Muitos de nós participamos ainda individualmente em várias actividades de serviço social, como o apoio aos sem-abrigo, no âmbito de um projecto chamado CASA, que não se limita a budistas. Desenvolvemos também várias actividades em prol dos animais, como a libertação de marisco vivo. As nossas actividades podem ser consultadas em www.uniaobudista.pt

8. Depois de tantos anos de ocupação chinesa no Tibete, o que tem falhado e o que poderemos ainda fazer?

O que tem falhado é um efectivo apoio e solidariedade a nível dos governos em todo o mundo, que por motivos políticos e económicos continuam a apoiar a China e a sacrificar os direitos humanos. A via é continuar a divulgar as atrocidades cometidas pelas autoridades chinesas e a fazer pressão a nível da sociedade civil para que os nossos governos se coloquem não do lado dos carrascos mas das vítimas.

9. Como explica o facto do Budismo ter praticamente desaparecido da Índia, tendo sido essa região a pátria de Buda?

Há várias razões, desde a oposição do Budismo à organização social em castas, que gerou a reacção violenta das castas superiores, até às invasões islâmicas, que destruíram os grandes centros da cultura e espiritualidade budista, como a grande Universidade monástica de Nalanda, onde ensinaram sábios como Nagarjuna, destruída no final do século XII e que chegou a contar com 10 000 alunos e 1500 professores.


10. No seu entender, a eleição de Obama poderá contribuir para uma mudança decisiva do panorama económico, social, político e cultural a nível internacional? E como perspectiva o futuro dos seres humanos tal qual os vê hoje?

Sinceramente, não creio que uma mudança decisiva e um futuro melhor para o homem e o planeta possa vir de algum líder político instalado no sistema, por mais poderoso que seja, pois ninguém chega ao poder sem ter de fazer concessões aos grandes grupos de interesses político-económicos que regem o mundo. A alternativa real passa por não alimentarmos a ilusão que nos leva a esperarmos tudo dos outros, ou de um Salvador, por mais carismático que seja, assumindo antes a nossa responsabilidade – a sua e a minha, leitor – por sermos desde já essa diferença que queremos ver surgir no mundo. Tal qual os vejo hoje, os seres humanos, se não mudarem radicalmente, continuarão a ser o que sempre têm sido: seres iludidos e sofredores. Porém, se em vez de sonhos cor-de-rosa sobre o futuro do mundo, se decidirem a transformar-se realmente, então vejo-os como Budas em potência.

11. Quer-nos falar um pouco sobre o Partido Pelos Animais? Porquê esta necessidade de dar uma contribuição à causa pública? Terá o Budismo influenciado a sua decisão?

É óbvio que o Budismo não me podia deixar indiferente a um projecto de defender a natureza e todas as formas de vida senciente, humana e não-humana, embora o PPA não seja um partido budista. Estou convicto que urge, para bem do planeta, do homem e dos animais, mudarmos radicalmente a mentalidade especista que nos governa, semelhante à racista e sexista, que nos leva a considerar que o homem, por ter uma diferente forma de inteligência, tem o direito de instrumentalizar os animais, que experimentam emoções e sensações de dor e prazer como nós. A defesa da natureza e do bem-estar animal impõe-se hoje como o novo paradigma mental, ético e civilizacional. Disso depende a própria sobrevivência e dignidade da espécie humana. Como budista, não posso deixar de considerar que o modo como tratamos os animais resulta, pela lei da causalidade kármica, em graves problemas ambientais, sociais e de saúde para o ser humano.

12. Como concilia a sua actividade de filósofo, escritor, budista, político, professor e homem? Como vive o Budismo no seu dia a dia?

Com a sensação de falta de tempo, como é óbvio! (risos) Na verdade, sinto-as pessoalmente como complementares e inseparáveis, embora saiba conter cada uma dentro dos seus limites próprios, no que respeita à relação com os outros. Creio que todos nós somos multifuncionais e que temos a potencialidade de “ser tudo, de todas as maneiras”, como diziam Pessoa e Agostinho da Silva, com quem muito aprendi. Procuro levantar-me cedo, fazer uma sessão de meditação e levar para a vida quotidiana, além de uma mente centrada no aqui e agora, uma outra visão das coisas, a visão de todos os seres como manifestações do próprio Buda, de modo a que isso impregne todos os meus pensamentos, palavras e acções. Mas sou apenas alguém que tenta praticar isso, com muitas imperfeições, e que tem muito caminho pela frente.

13. Poderia propor aos nossos leitores uma pequena prática, acessível a todos?

Esqueçam tudo o que acabaram de ler, bem como todas as vossas ideias e preocupações. Endireitem a coluna e sintam o corpo e a respiração durante uns momentos. Depois observem os vossos pensamentos e emoções, sem os combater e sem se deixarem arrastar por eles. Não tentem esvaziar a mente. Observem apenas o que nela surge e logo se dissipa, como nuvens no céu. Permaneçam assim dois ou três minutos.
Pensem agora em alguém que realmente amam, mais incondicionalmente, com menos expectativas de reconhecimento ou retribuição. Pode ser alguém que já partiu desta vida. Sintam-no e, se possível, visualizem-no diante de vós. Sintam como seria bom se o pudessem libertar de tudo o que o possa fazer sofrer, agora e no futuro, e como seria bom oferecer-lhe tudo o que possa tornar feliz, a todos os níveis, para sempre. Comecem então a inspirar, docemente, sentindo que o estão a libertar de tudo o que haja de negativo, sob a forma de um fumo cinzento que converge para o centro do vosso coração, no meio do peito. Mal esse fumo vos toca, transforma-se em luz branca ou dourada e é essa luz que, na expiração, lhe oferecem, impregnando-o totalmente e levando-lhe toda a saúde, bem-estar e felicidade. Continuem assim, sem qualquer receio, transmutando toda a negatividade em luz. Após alguns momentos, incluam todos os seres na inspiração e na expiração, libertando-os de toda a negatividade, transmutando-a em luz e oferecendo essa luz a todo o universo, em todas as direcções. Finalmente, numa expiração, deixem-se dissolver nessa luz, que dissolve igualmente todas as coisas. E permaneçam nesse estado, luminoso, sem limites, para além de todos os conceitos e palavras. Antes que voltem os pensamentos habituais, dediquem mentalmente o que fizeram para o bem, a paz e a felicidade de todos os seres.

Integrem esta experiência na vossa vida quotidiana, recordando que tudo quanto vêem e percepcionam à vossa volta é manifestação dessa mesma luz. E sejam felizes!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

"A Natureza da Mente" Parte 1 de 8

Conferência proferida pelo Lama Denys Rinpoché no dia 27 de Novembro de 2009 na FLUL. O evento foi dinamizado pelo projeto Filosofia e Religião e teve o apoio da Sangha Rimay Lusófona e da União Budista Portuguesa.



quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Feliz 2010

Que 2010 traga uma Felicidade Infinita a todos os seres sem nenhuma exceção e possamos nós ser capazes de dar o nosso contributo para que tal aconteça.
Sarva Magalam


quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Há espaço para altruísmo e compaixão no nosso sistema económico?

Is there room for altruism and compassion in our economic system?

On April 9 - 11, 2010, at the Kongresshaus Zürich, economic leaders and leading minds in neuroscience, applied economics, philosophy, contemplative science and anthropology will discuss moral and ethical dimensions of our economic system.

The ongoing global financial crisis clearly shows how vulnerable economic systems are to human behavior, particularly to corruption and greed. This conference focuses on the question: can we develop economic systems which deliver prosperity and welfare, while at the same time reward altruism and compassion?

Speakers include:

The XIV Dalai Lama
William George, M.B.A., Harvard Business School
Tania Singer, Ph.D., University of Zürich
Lord Richard Layard, Ph.D., London School of Economics
Antoinette Hunziker-Ebneter, M.B.A., Forma Futura Invest, Inc.
Matthieu Ricard, Ph.D., Shechen Monastery

Questions include:

Is it possible to develop an economic system which rewards a whole society as opposed to only one individual?
Can we conceive of a system that not only recognizes competitive success, but also recognizes cooperation and compassion?
What needs to change in the thinking structure of economists in order to facilitate that change?
Can an economic system be developed that resolves real societal problems related to poverty and environment?
The Mind and Life XX conference offers a unique opportunity to follow a high-level interdisciplinary exchange between scientists and economists.

The whole dialogue will be held in English. Please find attendance and registration details on our homepage: www.compassionineconomics.org.

Kind regards,

The Mind & Life Institute

domingo, 6 de dezembro de 2009

Oportunidade de mudança


"Quer estejamos ou não a fazer algo de válido com as nossas vidas, o tempo nunca espera, antes continua a fluir. E não só o tempo corre sem impedimentos, também a vida continua a mover-se em frente, tão constante como o tempo. Se alguma coisa correu mal, não podemos inverter o fluxo do tempo e tentar de novo. Neste sentido, não existe uma genuína segunda oportunidade. Daí que se torne crucial, para aquele ou aquela que segue a via do espírito, examinar constantemente as suas atitudes e acções. Se nos examinarmos cada dia com cuidado e uma mente atenta, verificando os nossos pensamentos e motivações, bem como as suas manifestações no comportamento externo, pode abrir-se em nós uma oportunidade de mudança e aperfeiçoamento pessoal."


S.S. XIV Dalai Lama, O Budismo Tibetano, Lisboa, Editorial Presença, 2001, p.16


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

"Reconhece o que está diante do teu rosto"

"Jesus dizia:
Reconhece o que está diante do teu rosto
e o que te é oculto te será desvelado"

- Evangelho de Tomé, 5.

Agantuka Sutta: Para todos os que vêm


Agati Sutta: fora do rumo
Traduzido a partir da versão inglesa de
Maurice O'Connell Walshe, in
http://www.accesstoinsight.org/tipitaka/sn/sn45/sn45.159.wlsh.html

“Suponde, praticantes, que há uma hospedagem. Viandantes vêm do leste, do oeste, do norte, do sul para se hospedarem nela: nobres e brahmanes, mercadores e servos. Da mesma forma, praticantes, um praticante que cultive o Nobre Caminho Óctuplo, que pratique assiduamente o Nobre Caminho Óctuplo, compreende, com o mais elevado conhecimento, que esses estados são para ser assim compreendidos; abandona, com o mais elevado conhecimento, esses estados que são para ser abandonados dessa forma; e cultiva, com o mais elevado conhecimento, os estados que são para ser cultivados dessa forma; chega à experiência, com o mais elevado conhecimento, desses estados que são para ser experienciados dessa forma, e cultiva, com o mais elevado conhecimento, os estados que são para ser cultivados dessa forma.”
“Quais, praticantes, são os estados a serem compreendidos com o mais elevado conhecimento?”
“São os cinco grupos do apego. Quais? O grupo do corpo, o grupo das emoções, o grupo da percepção, o grupo das formações mentais, o grupo da consciência...”
“Quais, praticantes, são os estados a serem abandonados com o mais elevado conhecimento?”
“São a ignorância e ambição.”
“E quais, praticantes, são os estados a serem experienciados com o mais elevado conhecimento?»
“São a Sabedoria e a Libertação.”
“E quais, praticantes, são os estados a serem cultivados com o mais elevado conhecimento?
“São a calma e a absorção meditativa (insight).”
“E como um praticante que cultiva o Nobre Caminho Óctuplo, que assiduamente pratica o Nobre Caminho Óctuplo, compreende…, abandona…, chega à experiência…, cultiva… com o mais elevado conhecimento esses estados que são para serem dessa forma compreendidos, abandonados, experienciados, cultivados?”
“Desta forma , praticantes: um praticante cultiva a Visão Recta... A Recta Concentração que se baseia no desapego, na serenidade, levando à maturidade da entrega total. Dessa forma ele, ou ela, compreende..., abandona..., chega à experiência..., cultiva, com o conhecimento mais elevado, aqueles estados que são para serem dessa forma compreendidos, abandonados, experienciados, cultivados."

sábado, 28 de novembro de 2009

Recordações do Curso de Budismo Tibetano

Disse Tsering Paldron, no curso intensivo de Budismo Tibetano realizado na UBP em Lisboa no ano passado o seguinte: para nós, praticantes da via de Buda, meditarmos todos os dias, mesmo naqueles em que não há vontade para isso, pois mais tarde iríamos recolher o fruto. Recordo-me também de ouvir numa das suas aulas que a verdadeira liberdade reside em não fazer aquilo que desejamos. Que belo curso! Julgo que na minha vida não aprendi tanto como aprendi naqueles Sábados magníficos, a ouvir a acutilância de Paulo Borges, o eruditismo de António Teixeira e a bondade e erradiância alegre e iluminada de Tsering Paldron.

Mas, para além de aprender, frisavam eles muitas vezes que os ensinamentos assemelham-se a uma jangada que nós usamos para atravessar um rio e que uma vez alcançada a outra margem - a margem da iluminação - que seria um fardo acarretá-la às costas, ou seja, era preciso abandoná-la. Sabedoria de Buda Shakhiamuni, creio eu... Em dezoito anos de escola frequentados por mim desde menino até  adulto, nunca tal sabedoria me fora transmitida. E no entanto, julgo ser das afirmações mais profundas que ouvi. E no entanto, na escola aprendi a ser adulto para agora querer desaprender e voltar a ser menino.

Diziam os professores que fazer discursos sem aplicar as suas ideias à vida quotidiana era idêntico a proferir palavras vãs, uma acção causadora de véus mentais. Não me esquecerei aquele episódio quando, num intervalo, o professor António Teixeira deixa cair, acidentalmente sobre a sua roupa, água quente para fazer chá... Impávido e sereno, o professor foi buscar um pano e resolveu a situação... Não é esta uma situação em que as pessoas normalmente se enervam ou entram em pânico?

Quem medita com o professor Paulo Borges certamente já reparou na sua voz grave, profunda e serena com que conduz a prática. As nossas mentes inquietam-se pois são como macacos que saltam de galho em galho (como escreveu Mingyour Rinpoche), mas a sua voz, que dá a sensação de provir das profundezas da terra, corta com a ilusão dos pensamentos conceptuais e da vanidade das emoções que fluem permanentemente na nossa mente, e conduz-nos novamente para o objecto de concentração. Um dia, diz o professor, vocês não precisarão mais de objecto de concentração e passarão, simplesmente, a repousar em estado de conciência primordial, que não é nem um estado de meditação nem de não-meditação. Quando assim repousarem  dia e noite, então poderão largar a jangada...


sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Vinda do Lama Denys a Portugal

A Sangha Rimay Lusófona, em colaboração com a Sangha Rimay Internacioal, com o Projeto Filosofia e Religião (FLUL) e com o apoio da União Budista Portuguesa, está a organizar a vinda do Lama Denys Rinpoché a Portugal. O Lama Denys Rinpoché virá acompanhado pelo Lama Mingyour e permanecerá em Portugal de 27 de Novembro a 1 de Dezembro.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Conferência: "Como gerir os conflitos" (3 de Dezembro de 2009)





Conferência pública de Khenpo Tseten, subordinada ao tema "Como gerir os conflitos".

Organização: Núcleo de Estudo do Dharma de Leiria (http://nucleodharmaleiria.wordpress.com/)
Data: 3 de Dezembro de 2009
Local: Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Instituto Politécnico de Leiria - Auditório 1
Contribuição: 5€
Mais informações: dharma.leiria@gmail.com

A palestra será em inglês, com tradução para o português por Tsering Paldron.

Localização da Conferência:


Ver Conferência - "Como gerir os Conflitos" - 3.12.2009 num mapa maior

Compaixão

No dia 12 de Novembro foi lançada a Carta pela Compaixão e tem havido desde esse dia centenas de iniciativas por todo o planeta relacionadas com este tema. É solicitado às pessoas que assinem a carta, ao lado de pessoas como o Dalai Lama, a Rainha Rania, Peter Gabriel, Arcebispo Desmond Tutu, Isabel Allende entre tantos outros. Uma das ideias desta Carta é que é necessário passar à acção e não nos ficarmos unicamente pelas palavras.

Na próxima sessão do Núcleo de Estudo do Dharma de Leiria faremos uma abordagem ao tema da compaixão, reservando para a segunda parte da sessão a prática de tonglen ou “a troca”, de acordo com a tradição budista. Como diz Pema Chodron: “A prática de tonglen reverte a lógica habitual de evitar o sofrimento e buscar o prazer. Nesse processo, nós nos libertamos de padrões muito antigos de egoísmo. Começamos a sentir amor, tanto por nós mesmos quanto pelos demais; passamos a cuidar de nós mesmos e dos outros. Tonglen desperta nossa compaixão e nos faz conhecer uma visão muito mais ampla da realidade.”

Noutro site encontra-se uma reflexão bem actual em que se aplicam estes princípios, denominada a sabedoria do espelho retrovisor, que vale a pena ler.Para celebrar este evento, o site TED associou-se publicando uma série de seis vídeos sobre o tema da compaixão. Estes vídeos, em inglês, abordam seis diferentes perspectivas sobre este tema, de acordo com diferentes crenças. Poderão ser um bom ponto de partida para praticar a compaixão no nosso dia-a-dia, em termos práticos.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Poemas Tibetanos de Shabkar - II

A ave divina,

a bela perdiz das neves,

Procurou a erva das pradarias

e a água das cascatas;

Agora detém-se

na fronteira das neves eternas;

Na bruma dos cumes

ressoa o seu apelo musical.


Traduzido do francês.
Traduzido para o francês por Matthieu Ricard.

domingo, 15 de novembro de 2009

Da ausência

Falta-nos alguém... aquela pessoa que nós somos realmente...
Por isso, o homem passa a vida a procurar-se...
- Onde vais tu?
- Vou atrás de mim!...
E o desgraçado corre e não descansa! De noite continua a correr... É um lobisomem...
- Repousa, pobre doido!
- Não posso! Morro de saudades por mim!
O que nos aflige e consome é esta ausência em que vivemos de nós próprios, esta distância incomensurável que nos separa do nosso espectro!
É esta saudade que nos mata!
Há quem se embriague para a esquecer. César foi César por causa dela.
E Jesus foi o Messias...

Teixeira de Pascoaes, O Bailado, Lisboa, Assírio e Alvim, 1987, p.44

sábado, 14 de novembro de 2009

Matthieu Ricard sobre os hábitos de felicidade

O que é a felicidade? Como podemos atingi-la? Mathieu Ricard, bioquímico de formação e monge budista por opção, diz-nos que podemos treinar as nossas mentes em hábitos de felicidade de forma a gerar um verdadeiro estado de bem-estar e realização.
Para ver o vídeo com legendas em português clique na opção "View subtitles" e escolha "Portuguese (Portugal)".



Natureza da mente, meditação e contemplação segundo a tradição do Dzogchen ou "Grande Perfeição"" - II

Todavia, o mesmo “yogi de ilusão”, que desreifica a fenomenalidade aparente contemplando a sua inerente vacuidade, converte-se assim igualmente num “yogi da abertura do espaço”, reconhecendo “que todos os fenómenos aparentes são o próprio espaço”, metáfora por excelência da insubstancialidade, infinidade, imutabilidade, não obstrução e inefabilidade do fundo, ou “verdadeira natureza da realidade”, que simultaneamente permite e impregna “todas as aparências possíveis”. O reconhecimento da ilusão de todas as coisas, incluindo do sujeito que as percepciona como “coisas” e a si mesmo como um “eu”, não dá lugar a um vazio niilizante, permitindo antes a plena transparência do fundo autêntico de tudo na consciência e na fenomenalidade. A própria ilusão desvanece-se assim como ilusória, tal o arco-íris, aparente mas irreal, de todas as coisas.

As “instruções essenciais” e concretas para a experiência disto são-nos dadas por um texto de Longchenpa, O Precioso Tesouro das Instruções Essenciais, que constitui uma introdução directa ao “estado desperto” na perspectiva do Dzogchen. Em contraste com os Sutras e os próprios Tantras, o modo de lidar com a “agitação mental” não consiste aqui, respectivamente, em afastar o negativo e cultivar o positivo ou em transformar o negativo em positivo, tratando-se antes de experimentar essa agitação como “naturalmente imaculada na sua pureza e liberdade”, a própria “intemporal consciência desperta” onde emerge, tal “uma brisa movendo-se através do céu”. Há que experimentar esta “consciência desperta”, a luminosidade de shunyata/tong pa nyid (vacuidade) enquanto fundo matricial de todos os fenómenos, como limpidez livre dos extremos da clareza e do obscurecimento, “constante unidade da mente e do que percepciona”, “infinita igualdade” livre das “fixações da esperança e do medo”, “vastidão de ser” e “verdadeira natureza da realidade” onde “todos os pensamentos prontamente se dissolvem”, incluindo os conceitos de “origem, cessação e duração” dos mesmos, subsumindo-se todos os processos discursivos na natureza primordial da “própria mente”, “esfera única de ser” que confere o “sabor único subjacente às coisas em toda a sua diversidade”. Mantendo apenas uma consciência não interventiva nos processos mentais, por maior que seja a turbulência conceptual-emocional, eles auto-libertam-se naturalmente, tal como um lago de águas agitadas e turvas se torna progressivamente sereno e transparente se for deixado entregue a si mesmo, sem nenhuma tentativa de apaziguar a sua ondulação, o que apenas a aumentaria. Deste modo o praticante imerge no “fluxo contínuo do ser genuíno”, tornando a sua visão, meditação e conduta capazes de suportar todas as “circunstâncias” emergentes, que assim reconhece integradas na experiência desperta.

Num capítulo com indicações práticas sobre como abarcar os próprios “conceitos” como “aliados” da consciência desperta, Longchenpa enumera seis modos de o fazer: 1 – mantendo-se uma “contínua consciência da consciência conceptual como se fosse uma suave brisa, que em e por si mesma se extingue”, experimentar-se-á o íntimo emergir da “intemporal consciência desperta naturalmente ocorrente”; 2 – treinando-se contemplar a agitação mental como um “relâmpago no céu, em e por si mesmo puro”, experimentar-se-á tudo o que agite a mente como a natural lucidez da “intemporal consciência desperta”; 3 – mantendo-se uma “contínua consciência da consciência como se fosse uma pequena ondulação na água, em e por si mesma baixando”, experimentar-se-á o emergir de todos os estados de consciência como o estado iluminado “naturalmente ocorrente”; 4 – mantendo-se uma “contínua consciência de quaisquer conceitos como aliados” e “expressões da verdadeira natureza da realidade”, sem “aceitação ou rejeição”, experimentar-se-á o mesmo íntimo emergir do estado iluminado; 5 – mantendo-se uma “contínua consciência” das próprias fixações perceptivas como “aliados” que naturalmente se dissolvem sem objecto residual, experimentar-se-á o mesmo emergir da “intemporal consciência desperta”, “sem base fixa”, ao mesmo tempo que se percepcionarão as “coisas” como “evanescentes”; 6 – mantendo-se uma “contínua consciência da radiância natural da consciência desperta” como a própria “vastidão lúcida do ser”, experimentar-se-á o seu fundo emergir como algo “vívido que todavia não deixa traços”. Como conclusão, quem assim praticar, imergindo no “ser genuíno”, experimentará a “intemporal consciência desperta a emergir dos próprios pensamentos”. Remata Longchenpa: “É absolutamente essencial que experimentem todas as coisas manifestando-se como os vossos aliados, / tal como pilhas de madeira seca nutrem um grande fogo”.

Passa-se assim da meditação, enquanto processo ainda intencional da consciência, que se foca analiticamente ou não num objecto, que pode ser ela mesma, enquanto puro acto de estar consciente, para uma plena abertura contemplativa em que apenas há que descontrair completamente o corpo e a mente e “repousar à-vontade”, sem “aceitar ou rejeitar” qualquer fenómeno sensível ou mental, numa “frescura não artificial, tal qual”. Deixando que todos os pensamentos, percepções e emoções, todas as formas de “agitação ou turbilhão mental”, se auto-libertem, ou seja, se dissolvam naturalmente na “natureza última da realidade”, este modo de repousar equivale a “residir na não-dualidade”, conduzindo seguramente a experienciar a emergência do estado iluminado “como uma ampla vastidão livre de limitações”.

Nisto consiste a descoberta da “jóia da própria mente no seu íntimo”, o que liberta do temor da morte ou da “transição para outra vida”. Na verdade, vendo-se que a “verdadeira natureza da própria mente é ultimamente o estado de Budeidade”, é-se “livre da escravidão causada pela esperança e pelo medo”. Se Longchenpa declara que “alguém assim imerso no ser genuíno é um Buda manifesto”, logo esclarece não haver “alguém” que “tenha tal realização/tomada de consciência”. O Despertar é sem sujeito pois é o despertar do sonho/pesadelo da id-entidade separada. Não conduz assim ao “auto-enaltecimento”, estabelecendo o “yogi da ilusão” (de haver ilusão e seu sujeito) num estado para além de qualquer “comparação”: o estado natural da mente, agora mesmo, a cada instante.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Natureza da mente, meditação e contemplação segundo a tradição do Dzogchen ou "Grande Perfeição"" - I



- Longchenpa

Publico o início da comunicação que apresentarei no Sábado, dia 14, pelas 11.30, no 3º Simpósio Internacional "Fronteiras da Ciência", A Humanidade e o Cosmos, organizado pelo Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência da Universidade Fernando Pessoa (Porto), em 13 e 14 de Novembro. A presente versão não tem notas de rodapé.

...

A presente comunicação visa introduzir à experiência meditativa e contemplativa da natureza última da mente e dos fenómenos segundo a tradição budista tibetana do Dzogchen, ou "Grande Perfeição", a partir de textos de dois dos seus mais eminentes representantes, ambos pertencentes à escola dos Antigos ou Nyingmapa: Longchenpa (1308-1363) e Dudjom Lingpa (1835-1904). Considerado, na classificação da mesma escola, e na perspectiva da via gradual (lam rim), como o último e supremo dos nove veículos para o reconhecimento da natureza primordial da mente e de todos os fenómenos - a natureza de Buda, designação não de uma figura histórica, mas do pleno desvendamento da realidade última - , o Dzogchen é todavia, em si mesmo, não propriamente uma via ou um veículo, mas o próprio estado de experiência imediata da perfeição natural e absoluta de todas as coisas, independente dos métodos e práticas que o podem preparar e mesmo de qualquer tradição, religião ou escola específicas.

Começamos por um texto de Dudjom Lingpa, Nang-jang, Refinar os Fenómenos Aparentes, cujo início descreve a constituição da experiência condicionada de si e do mundo e a sua ausência de fundamento. Se analisarmos, aquilo que se designa como o “si mesmo da personalidade individual” não consiste senão numa “impressão de que existe um si mesmo”, seja na vigília, no sonho ou no bardo – o estado intermediário entre uma morte e um renascimento. Porém, “seguindo imediatamente essa primeira impressão, há uma consciência subjacente” – também designada como “consciência subsequente ou “pensamento discursivo” - que considera essa impressão como sendo um “eu””. Isso parece tornar “mais clara”, “estável e sólida” a “impressão do si mesmo”, se bem que, se tentarmos localizar a fonte originária do dito “eu”, tenhamos de concluir que ela não existe.

Trata-se com efeito de investigar, a respeito do assim chamado “eu”, se podemos determinar-lhe uma “localização” e um “agente localizado”, existentes como “entidades” “individualmente identificadas” e com “características ultimamente definidoras”. Se procurarmos essa id-entidade com características irredutíveis que designamos com a etiqueta “eu”, no corpo e em cada uma das suas partes, ou na sucessão dos momentos de consciência, não a encontramos nem ao seu lugar, o que se converte na certeza acerca da sua “vacuidade” (tong-pa-nyid). Verificando-se, pela experiência analítica que corrige a irreflectida crença conceptual subjacente à experiência comum, não haver senão “a aparência de algo existente onde nada existe”, designar algo como um “eu” revela-se equivalente a “descrever os chifres de um coelho”.

A mesma análise deve estender-se então à suposta natureza intrínseca dos fenómenos integrantes da esfera do não-eu, animados ou inanimados. Se procurarmos a “base da designação” dos “nomes” que lhes atribuímos, ou seja, “os objectos últimos aos quais todos os nomes se aplicam”, verificaremos ser impossível estabelecer a auto-sustentação de qualquer fenómeno que seja, em si e por si. Deste modo, a sua nomeação “em nada mais redunda do que na aplicação de etiquetas ao que não existe”, pelo impulso entusiástico “responsável pelo pensamento conceptual”. A análise da natureza última das coisas vem pôr fim a esse impulso, convidando à abolição dos “conceitos da aparente permanência de entidades substanciais” e objectivamente existentes ao mostrar nelas a mesma “vacuidade” antes reconhecida ao “eu”. É suposto que esta constatação, caso se converta numa experiência constante, tenha como efeito a libertação de todos os condicionamentos mentais, suscitando nomeadamente o colapso da ilusão do benefício e da ofensa, da esperança e do medo.

Até aqui, a abordagem mantém-se na esfera do budismo primitivo e, particularmente, do Mahayana, que enfatiza a sabedoria consistente no reconhecimento da dupla vacuidade, do eu e dos fenómenos, como na paradigmática obra de Nagarjuna, as Estâncias da Via do Meio. Sabedoria indissociável da compaixão imparcial e universal pelo sofrimento de todos os seres vítimas das suas próprias ilusões mentais e das emoções e acções-reacções por elas suscitadas. Tal como são inseparáveis a verdade absoluta, trans-conceptual e trans-emocional, e a relativa, referente à experiência conceptual-emocional do mundo, assim o são a sabedoria, o amor bondoso e a compaixão.
A especificidade do Dzogchen manifesta-se todavia, para além da dialéctica desconstrutiva de todas as visões do mundo, exacerbada em Nagarjuna e na escola Madhyamika, no aprofundamento da natureza da experiência da realidade como uma “interdependência de causas e condições” reunidas, onde se destaca, no íntimo dos doze nidanas - ou elos da produção interdependente que estrutura toda a experiência condicionada de si e do mundo, desde a ignorância até ao nascimento e à velhice e morte - , um fundo primordial inato, livre de todo o condicionamento e, por isso mesmo, eminentemente fecundo. Há assim um ”factor causal” e um “factor condicionante”. O primeiro é shi ying, “o fundo do ser como espaço fundamental, subtilmente lúcido e dotado da capacidade para que tudo apareça”. O “espaço fundamental”, ying, designa a própria vacuidade, que aqui surge, não como mera ausência de pontos de vista sobre as coisas, a qual, como em Nagarjuna, dissolve o haver “coisas” na abstenção de qualquer modo de predicação – A, não A, A e não A, nem A nem não A - , mas antes como a matriz da fenomenalidade universal, indissociável da luminosidade da consciência primordial e da potência manifestativa, as quais constituem no Dzogchen a tríade de aspectos da intemporal natureza de Buda e o sentido mais profundo da Tripla Jóia, Buda, Dharma e Sangha. Quanto ao “factor condicionante”, “é uma consciência que imagina um «eu»”, ou seja, a mesma “consciência subjacente”, “subsequente” ou discursiva atrás referida, que interpreta erroneamente a impressão de existir um “si mesmo”, cristalizando-a na ficção de um “eu” substancial. Da união dos dois factores, “causal” e “condicionante”, “todos os fenómenos aparentes se manifestam, como ilusões”.

A experiência da realidade fenoménica, externa e interna, procede assim da “conexão interdependente” do fundo primordial de tudo com a modalidade de consciência reificante que o vela, mas que não deixa de emergir a partir de si e, mais concretamente, da sua “energia dinâmica” (tsel), a potência ou virtualidade manifestativa atrás referida. Como diz o texto: “Deste modo, o fundo do ser como espaço fundamental (shi-ying), a mente comum (sem) que surge da energia dinâmica (tsel) desse fundo e os fenómenos externos e internos que constituem o aspecto manifesto dessa mente comum estão todos interligados (lu-gu-gyüd), como o sol e os seus raios”. A visão da “Grande Perfeição” assume a presença, em termos mais positivos do que na dialéctica negativa e desconstrutiva das outras abordagens budistas, de um incondicionado cuja funcionalidade consciente e manifestativa permanece inerente a isso mesmo que dela surge como sua distorsão e encobrimento, refractando-a nas aparências já conceptuais e dualistas do absoluto e do relativo ou do nirvana e do samsara, ultimamente ilusórias. Por mais obscurecedora e densa que possa parecer a experiência reificada do eu e do mundo, isto significa que a sua natureza íntima, a cada instante susceptível de ser reconhecida e fruída, é livre de todos os condicionamentos adventícios, que em verdade não possuem fundamento real, pois não procedem senão de uma incompreensão da natureza do processo, a ignorância (ma-rigpa), revogável mediante a meditação analítica e contemplativa.

Toda a infinita variedade dos fenómenos assim se manifesta como algo que em si e por si não existe, pois jamais difere substancialmente da omnipenetrante e lúcida vastidão da vacuidade do “fundo” primordial, que apenas aparece dividida nas esferas do si mesmo e do outro devido à concepção de um “eu” que a força aos “estreitos confins” de uma consciência subjectiva e conceptual e padece a “confusão” de conferir realidade ao que a não tem, ele mesmo e o outro de si, tornada um “hábito arreigado”. Deste modo se constitui a percepção convencional da realidade, de si e do mundo, karmicamente distribuída pelas seis possibilidades de existência e pelos estados de vigília, sonho e bardo, que metaforicamente se descrevem “como a aparência de uma ilusão mágica (gyu-ma)”, uma “miragem (mig-gyu)”, um “sonho (mi-lam)”, um “reflexo (zug-nyan)” num espelho, “cidades” visionárias (dri-zai drong –khyer), “ecos (drag-cha)”, “reflexos de todos os planetas e estrelas no oceano (gya-tsoi za-kar)”, só aparentemente diversos mas na verdade indistintos da própria água, “bolhas formando-se na água (chu-bur-gyi bu-wa)”, uma “alucinação (mig-yor)” e uma “emanação” fantasmática (trul-pa). Meditar e contemplar deste modo todos os fenómenos conduz a vê-los como “ilusões” (gyu-ma), tornando-se o praticante num “yogi de ilusão”.

(continua)

Um sorriso...


Sua Santidade o Dalai Lama

O mundo foi, como é o Sol, uma esfera de oiro incandescente. Esse oiro persiste ainda em certas criaturas; corre-lhe nas veias com o sangue e é um sorriso que elas têm... Um sorriso... vede as asas da alegria!...

Teixeira de Pascoaes

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Atta Dipa

ATTA DIPA
VIHARATHA
ATTA SARANA
ANANNA SARANA
DHAMMA DIPA
DHAMMA SARANA
ANANNA SARANA

és a Luz

confia em ti

em nada mais

o Dharma é a Luz

confia no Dharma

em nada mais



"Atta Dipa" é a transcrição das palavras do Buda, na sua língua, o Pali, tais como as disse aos seus discípulos há 2500 anos atrás. "Atta" é "eu;" "Dipa" luz, e a palavra seguinte "viharatha" exprime a sua identidade. Na tradução "Tu és a própria luz." O que significa a identidade do eu e da luz? Por vezes ouvimos pessoas falar de luz interior, como se fosse uma centelha do divino dentro de nós, ou como se a luz fosse a nossa verdadeira natureza, de uma certa forma “enterrada” dentro do nosso eu de todos os dias, ou falso eu. Mas penso que não é isso o que o Buda quis dizer. Não quis dizer que temos uma luz dentro de nós, diz que SOMOS luz.