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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Caminho da Iluminação

Imagem retirada de Dharmanet


Não há vício pior que a raiva nem ascese comparável à paciência. Por isso, devemos cultivar ativamente a paciência pelos mais diversos meios.

A dor tem uma grande virtude; é um tal abalo que deita por terra a arrogância, desperta a compaixão pelos seres, faz recear os atos prejudiciais e desperta o amor pela virtude.

Se bastasse a todos os homens desejar para conseguir, ninguém sofreria, pois ninguém deseja o sofrimento.

Não nos irritamos com o pau, autor imediato das pancadas, mas com quem o maneja; ora, como este homem é manipulado pela raiva, é a raiva que é preciso odiar!

Se lhes devolvesse o mal que me fazem, tão pouco seriam salvos por isso; além disso, a minha prática espiritual seria corrompida e a minha ascese quebrada.

A mente imaterial de modo algum pode ser atingida; se ela é tocada pela dor física é por causa do seu apego ao corpo.

Perdoas ao maldizente quando vês que ele é influenciado por outros. Porque não perdoas a quem te critica se ele está sob a influência das emoções negativas?

Quando uma casa está ardendo, corremos à casa vizinha e retiramos a palha e as outras matérias inflamáveis onde o fogo possa pegar; da mesma maneira, todo o apego que possa atiçar o fogo da raiva deve ser logo eliminado, com medo que a nossa acumulação de méritos seja consumida.

Se uma desgraça acontece ao teu inimigo, por que te regozijas? Por muito negativos que os teus pensamentos sejam, não lhe podem causar qualquer dano e, mesmo que esta desgraça tivesse sido realizada por tua vontade, de que modo poderia ela dar-te felicidade? Se dizes "Como fiquei contente!", não há melhor maneira de provocares a tua ruína.

A minha mente parece uma criança gritando de desespero quando a onda leva o seu castelinho de areia, assim que a minha reputação e glória se arruínam.

"Mas o meu inimigo estorva as minhas boas obras!" Má desculpa para o ressentimento, pois não há ascese comparável à paciência e a ocasião de a praticar é oferta sua.

Um inimigo adquirido sem esforço é um tesouro que me surgiu em casa; muito caro me deve ser este auxiliar da minha carreira espiritual.

Ora, esta insigne parcela que faz germinar em nós as virtudes de um Buddha, está presente em todos os seres. É por causa desta presença que os seres devem ser reverenciados.

Ninguém com o corpo envolto em chamas é capaz de sentir qualquer forma de prazer. Também os compassivos, na presença do sofrimento dos seres, são incapazes de experimentar alegria.

Excertos do capítulo 6 do Bodhicharyavatara de Shantideva, sobre a paciência

A Escola Madhyamika ou «Via do Meio»


A experiência e compreensão da vacuidade, segundo a visão da escola Madhyamika ou «Via do Meio» - na esteira de Nagarjuna (sécs. I-II), o reputado mestre indiano da universidade monástica de Nalanda -, liberta a mente de toda a tese extrema, eternalista/essencialista ou niilista, que afirme uma entidade permanente e intrínseca nas coisas ou as considere absolutamente não existentes, emancipando-a de toda a opinião ou posição acerca da natureza das coisas, incluindo de si mesma, segundo as quatro possibilidades de pensar e dizer algo a respeito de algum objecto: que é, não é, é e não é, nem é nem não é. Assim se suspende o regime discursivo da avidez e apropriação conceptual, que troca o real por palavras e entificações: «Abençoada é a pacificação de todo o gesto de apreensão, a pacificação da proliferação das palavras e das coisas» [Nagarjuna]. A experiência directa, não conceptual, da vacuidade de tudo inclui a própria vacuidade, que não pode jamais ser entificada ou convertida numa nova perspectiva, consistindo antes no esvaziamento de todas elas (e assim no seu próprio auto-esvaziamento, não devendo sobreviver a si mesma, como posição substituta e alternativa das que se abandonam): «Os Vitoriosos proclamaram que a vacuidade é o facto de escapar a todos os pontos de vista. Quanto àqueles que fazem da vacuidade um ponto de vista, declararam-nos incuráveis» [Nagarjuna]. Como se sugere na primeira estância de Nagarjuna aqui citada, esta experiência tem um sentido libertador e soteriológico, que Shantideva aponta mais nitidamente: «Quando algo e a sua não existência/ Estão ambos ausentes da mente,/ Sem outra opção,/ Livre de conceitos, repousa perfeitamente».

Paulo Borges, «Posso imaginar-me tudo, porque não sou nada. Se fosse alguma coisa, não poderia imaginar» Vacuidade e Auto-criação do Sujeito em Fernando Pessoa in (Org.) Paulo Borges e Duarte Braga, O Buda e o Budismo no Ocidente e em Portugal, Lisboa, Ésquilo, 2007, pp-361-362

Imagem: www.rigpawiki.org/images/6/67/Buddhapalita.JPG