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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Poesia do silêncio

Assim «de uma desaparecida a um desaparecido»
Com a mão de Buda,
Eu ofereço a flor por colher;
O solilóquio da rã,
Por entre a flor do loto; a boca húmida de leite,
Presa ao meu seio túrgido
E ofereço o amor e, como o céu sem nuvens,
Que torna possíveis as montanhas
E a Lua a pôr-se,
Este vazio que é o centro do amor
Esta poesia do silêncio.
- Susila

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Tudo se autoliberta



Vós errais nesta existência por causa do bem e do mal:
Felicidade, infelicidade, condições elevadas e baixas, isso assemelha-se ao balde de água que sobe e desce num poço !
Ao longo dos três tempos, os seres extraviam-se nos três domínios samsáricos,
Atormentados pela doença de perseguir os conceitos nascidos da ignorância.
Que pena, todos estes seres para os quais não há princípio nem fim no tempo !

Kyé ho ! Tudo isso não é senão sonho e ilusão.
Em verdade, não há nem círculo vicioso nem alguém que ande às voltas.
Aí, onde tudo é livre desde sempre, é Samantabhadra.
Regozijai-vos, pois não há nem fundo, nem origem, nem substância.

Sem artifícios e originalmente pura, a natureza da mente
Não é afectada pelos fenómenos do mundo aparente, semelhantes aos reflexos num espelho.
Sem conceber objectos na esfera das percepções,
Nem imaginar um sujeito na mente que surge por si mesma,
A Sabedoria não dual emerge desta dupla compreensão,
Enquanto objectos e mente se manifestam como os seus incessantes ornamentos.

[...]

Kyé ho ! Amigos ! Samsara e nirvana não são nada mais que isso !
Todos os fenómenos são a manifestação do espaço e da natureza da mente.
Livre a base ! Livre a via ! Livre desde sempre o fruto !
Tudo se autoliberta e num jogo ilusório
Emergem percepções sem desígnios nem postulados particulares.
Tudo é assim. Deixai cair o vosso apego tenaz a um objectivo.
Ultimamente não há nem ilusão nem ilusionista;
Quando vos convencerdes de que não há meditação nem não-meditação,
Para quê tantas actividades e coisas a fazer ?
A respeito de todas as vossas percepções, não tereis mais nenhum apego ávido.
Sereis desprendidos, sem avidez, sem intenções nem parcialidade !
Sendo a ausência de “eu” vacuidade, a não-dualidade é espontaneamente presente.
Não permaneçais no samsara nem mesmo no nirvana !
É a intenção de todos os preceitos, dos sutras e dos tantras.

- Longchenpa [Tibete, 1308-1364(9), A liberdade natural da mente.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

HAKUIN ZENJI: Canção do Zazen

Poema do Dharma, por Hakuin Ekaku [1685 – 1768]

(Traduzido a partir da versão em inglês de Robert Aitken Roshi - Diamond Sangha Zen Buddhist Society, pela Delegação do Porto da UBP)

Todos os seres por natureza são Buda,
tal como o gelo por natureza é água;
à parte da água não há gelo,
à parte dos seres não há Buda.
Que pena as pessoas ignorarem o que está próximo
e procurarem a verdade no longínquo,
como alguém mergulhado na água
lamentando-se com sede,
ou uma criança de uma casa abastada
vagueando entre os pobres.
Perdidos nos caminhos sombrios da ignorância
vagueamos através dos seis mundos,
de caminho sombrio em caminho sombrio vagueamos,
quando estaremos livres do nascimento e da morte?
É por isto que o zazen do Mahayana
merece o mais alto apreço:
oferendas, preceitos, paramitas,
Nembutsu, expiação, prática –
as muitas outras virtudes –
todas brotam dentro do zazen.
Aqueles que tentam o zazen ainda que uma vez
limpam imensuráveis crimes –
onde estão então todos os caminhos sombrios?
A própria Terra Pura está próxima.
Aqueles que ouvem esta verdade ainda que uma vez
e a recebem com um coração grato,
estimando-a, venerando-a,
ganham bênçãos sem fim.
Quanto mais se tu te viras
e confirmas a tua própria natureza –
essa natureza é não natureza –
estás muito para lá de meros argumentos.
A unidade de causa e efeito é clara,
não dois, não três, o caminho é correctamente estabelecido;
com forma que é não forma,
indo e vindo – nunca perdido,
com o pensamento que é não pensamento,
cantar e dançar é a voz da Lei.
Ilimitado e livre é o céu do samadhi!
Brilhante a lua cheia da sabedoria!
Faltará porventura agora alguma coisa?
O nirvana é aqui, perante os teus olhos,
este próprio lugar é a Terra do Lótus,
este próprio corpo o Buda.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

"As nuvens são as manifestações do céu"



- Estátua de Milarepa, Pango Chorten, Gyantse, Tibete.

Os Cantos de Milarepa
(excerto)

“A base não fabricada é a grande vacuidade,
A via não fabricada é a grande transparência,
O fruto não fabricado é o mahamudra.
O yogi possui estes três: base, via e fruto.
A jovem mulher quer possuir estes três: base, via e fruto ?”

Assim cantou Mila.

A jovem rapariga disse: “Se a base, a via e o fruto são assim,
Que segredos intrépidos tendes vós ?”

Em resposta Mila entoou este canto:

“A ausência de deuses e demónios é o segredo da visão,
A ausência de distracção e de meditação é o segredo da meditação,
A ausência de esperança e de temor é o segredo do fruto.
O yogi possui estes três segredos.
A jovem mulher quer realizar estes três segredos ?”

Assim cantou Mila.

Com uma grande fé, a jovem rapariga tocou os seus pés. Ela fez o pedido de instruções de meditação e ofereceu-lhe esta súplica:

“Ó Precioso Jetsun, ó Supremo yogi,
De dia estou ocupada pelo trabalho,
De noite, afundo-me no sono da ignorância.
De manhã à noite, sou escrava da comida e do vestuário,
Não há tempo para praticar o Dharma.
Peço um ensinamento para alcançar o estado de Buda,
Peço um ensinamento para alcançar a iluminação”

Assim cantou ela.

Em resposta, Jetsun entoou este canto
das quatro analogias e dos cinco significados:

“Ó jovem mulher Peldarbum,
Escuta, mulher afortunada, dotada de fé,
Ergue os olhos para o céu
E medita, livre de limites e de centro.
Ergue os olhos para o céu e a lua
E medita, livre de luminosidade e de obscuridade.
Contempla as montanhas
E medita, livre de mudança.
Contempla o lago
E medita, livre dos pensamentos discursivos”

Assim cantou Mila.

A jovem mulher, tendo meditado, ofereceu depois o exame da sua mente.

“Ó precioso Jetsun, ó Yogi supremo,
Posso meditar no céu
Mas, quando se erguem nuvens,
Como devo meditar ?
Posso meditar no sol e na lua
Mas, quando se movem planetas e estrelas,
Como devo meditar ?
Posso meditar nas montanhas
Mas, quando as árvores de fruto desabrocham,
Como devo meditar ?
Posso meditar no lago
Mas, quando surgem os pensamentos discursivos,
Como devo meditar ?

Assim cantou ela.

Jetsun entoou este canto para dissipar os seus obstáculos :

“Ó jovem mulher Peldarbum,
Escuta, mulher afortunada, dotada de fé,
Se podes meditar no céu,
As nuvens são as manifestações do céu,
Examina de novo estas manifestações,
Examina de novo a tua mente.
Se podes meditar no sol e na lua,
As estrelas e os planetas são manifestações do sol e da lua.
Examina de novo estas manifestações,
Examina de novo a tua mente.
Se podes meditar nas montanhas,
As árvores de fruto são manifestações da montanha.
Examina de novo estas manifestações,
Examina de novo a tua mente.
Se podes meditar na tua mente,
Os teus pensamentos discursivos são manifestações da tua mente.
Examina de novo a raiz dos pensamentos discursivos,
Examina de novo a tua mente”

Assim cantou Mila.

Tendo a jovem meditado, desenvolveram-se excelentes experiências; mais tarde o Mestre viu-a, cantou de novo e deu-lhe instruções orais nas quais ela meditou; tornou-se então uma yogini maravilhosa, detentora da linhagem oral.

- Milarepa, Tibete, 1040- ?