sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Tudo se autoliberta



Vós errais nesta existência por causa do bem e do mal:
Felicidade, infelicidade, condições elevadas e baixas, isso assemelha-se ao balde de água que sobe e desce num poço !
Ao longo dos três tempos, os seres extraviam-se nos três domínios samsáricos,
Atormentados pela doença de perseguir os conceitos nascidos da ignorância.
Que pena, todos estes seres para os quais não há princípio nem fim no tempo !

Kyé ho ! Tudo isso não é senão sonho e ilusão.
Em verdade, não há nem círculo vicioso nem alguém que ande às voltas.
Aí, onde tudo é livre desde sempre, é Samantabhadra.
Regozijai-vos, pois não há nem fundo, nem origem, nem substância.

Sem artifícios e originalmente pura, a natureza da mente
Não é afectada pelos fenómenos do mundo aparente, semelhantes aos reflexos num espelho.
Sem conceber objectos na esfera das percepções,
Nem imaginar um sujeito na mente que surge por si mesma,
A Sabedoria não dual emerge desta dupla compreensão,
Enquanto objectos e mente se manifestam como os seus incessantes ornamentos.

[...]

Kyé ho ! Amigos ! Samsara e nirvana não são nada mais que isso !
Todos os fenómenos são a manifestação do espaço e da natureza da mente.
Livre a base ! Livre a via ! Livre desde sempre o fruto !
Tudo se autoliberta e num jogo ilusório
Emergem percepções sem desígnios nem postulados particulares.
Tudo é assim. Deixai cair o vosso apego tenaz a um objectivo.
Ultimamente não há nem ilusão nem ilusionista;
Quando vos convencerdes de que não há meditação nem não-meditação,
Para quê tantas actividades e coisas a fazer ?
A respeito de todas as vossas percepções, não tereis mais nenhum apego ávido.
Sereis desprendidos, sem avidez, sem intenções nem parcialidade !
Sendo a ausência de “eu” vacuidade, a não-dualidade é espontaneamente presente.
Não permaneçais no samsara nem mesmo no nirvana !
É a intenção de todos os preceitos, dos sutras e dos tantras.

- Longchenpa [Tibete, 1308-1364(9), A liberdade natural da mente.
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