quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Dza Patrul Rinpoche


(Estas histórias foram retiradas do excelente livro
"The Snow Lion's Turquoise Mane:
Wisdom Tales From Tibet" de Surya Das.)

Prostrações a um Vagabundo Iluminado

Dza Patrul Rinpoche foi o maior mestre Dzogchen (Grande Perfeição) da virada do século. Famoso como professor, poeta e autor, viajou pelo Tibete oriental completamente anônimo, vestindo um traje nômade feito à mão de pele de ovelha. Poucos reconheciam este reverenciado lama ao qual todos queriam conhecer.

Uma vez Patrul Rinpoche deparou-se com uma caravana de lamas que estavam a caminho de uma grande reunião e juntou-se a eles. Ele estava tão maltrapilho, e era tão comedido, que foi tratado como um praticante mendicante comum. Ele tinha que ajudar a preparar o chá, apanhar a lenha e servir os monges da comitiva enquanto viajavam por uma região remota de Kham, no Tibete oriental.

Um dia, alguns deles ouviram que um importante lama estava dando uma grande transmissão, iniciação e ensinamentos Vajrayana (Veículo do Diamante) perto dali, e a comitiva inteira apressou-se para comparecer.

Quando chegaram, todos os lamas e membros importantes do clero presentes adornaram-se com trajes monásticos completos, chapéus, coroas e adereços; selas ornamentadas e grinaldas decoravam alegremente suas montarias.

Longos berrantes, conchas e trombetas de bronze ofereciam uma verdadeira sinfonia de sons celestiais. Cada reverenciado lama estava sentado em um trono, sua altura de acordo com a hierarquia oficial... Então os rituais e iniciações começaram.

Ao fim da iniciação, todos aproximaram-se para apresentar oferendas ao mestre regente e receber a benção de sua mão sobre a cabeça. Patrul, que estava sentado quietinho atrás da congregação o tempo todo, entrou no fim da longa fila, esperando pela benção. Enquanto a coisa progredia vagarosamente, cada um prostrava-se perante o trono do grande mestre, oferecendo uma echarpe branca e recebendo uma bênção.

No início, o lama tocava um por um com a mão. Então, como a congregação era muito grande, começou simplesmente a tocá-los com uma longa pena de pavão. Assim continuou, até que o maltrapilho vagabundo chegou diante dele. Os olhos do mestre regente arregalaram-se surpresos: esta figura maltrapilha era ninguém mais do que o Buda vivo, o supremo mestre Dzogchen Dza Patrul!

Descendo do trono, o grande lama curvou-se ao chão. Enquanto a massa ficava boquiaberta, ele ofereceu a Patrul a pena de pavão e prostrou-se repetidas vezes diante do sábio, que sorria gentil.



Aperfeiçoando a Paciência
Nem todos os praticantes budistas dedicados são monges em mosteiros. Há uma grande tradição de iogues tibetanos que vivem como eremitas, meditando e orando solitários. Outros erram livres e desapegados, anacoretas sem status social ou posses, aparentando serem meros mendigos ou vagabundos, mas na verdade estando mais próximos dos místicos loucos sagrados dos tempos ancestrais, os siddhas da Índia.
Patrul Rinpoche era conhecido pelo seu rude estilo de vida, comportamento iconoclástico e aparência despretensiosa, bem como por sua imensa erudição e realização espiritual. Profundamente preocupado em manter os praticantes focados na essência da espiritualidade em contraponto às meras convenções formais, ele nunca hesitou em denunciar a pretensão e a hipocrisia.

Um século atrás, o iluminado vagabundo Patrul Rinpoche vagava como um mendicante anônimo, quando ficou sabendo de um famoso eremita que vivia há muito tempo em reclusão. Patrul foi visitá-lo, entrando na escura caverna do monge sem ser convidado e espiando por todos os lados com um sorriso irônico em seu rosto castigado.

"Quem és?", perguntou o eremita. "De onde vieste, para onde vais?"
"Venho da direção atrás das minhas costas e vou na direção que está à minha frente", respondeu Patrul.
O eremita ficou perplexo. "Onde nasceste?"

"Na terra", foi a resposta.

O eremita ficou um pouco agitado. "Como é teu nome?", ele exigiu.
"Iogue Além da Ação", respondeu o convidado inesperado.

Então Patrul Rinpoche inocentemente perguntou por que o eremita vivia em um lugar tão remoto. Era uma questão que o eremita, com algum orgulho, estava preparado para responder.

"Estou aqui há vinte anos. Tenho meditando na Perfeição da Paciência transcendental."

"Essa é boa!", disse o visitante anônimo. Então, chegando mais perto, como para dizer um segredo, Patrul sussurrou: "Dois charlatões como nós nunca conseguiriam fazer uma coisa dessas!".
O irado eremita levantou rápido de seu assento. "Quem tu pensas que és, perturbando meu retiro assim? Que te fez vir aqui? Porque não podias deixar um humilde praticante como eu meditando em paz?!", ele explodiu.

"E agora, amigo", disse calmamente Patrul, "onde está sua perfeita paciência?"



Compaixão Clarividente
Certa vez Patrul Rinpoche decidiu oferecer cem mil prostrações para seu professor Mingyur Namkhai Dorje durante um ano inteiro. Mas este, o maior lama do Mosteiro Dzogchen, era totalmente imprevisível.

Logo que Patrul fazia uma prostração, o grande mestre levantava-se e prostrava-se a Patrul. Isso ocorria cada vez que Patrul começava a curvar-se diante do grande lama. Finalmente Patrul escondeu-se no templo, atrás do trono de Namkhai Dorje. Ali, invisível, ele oferecia discretamente suas prostrações.

Namkhai Dorje também era conhecido por sua clarividência desobstruída. Certa vez, Patrul Rinpoche parecia estar procurando por algo antes de sair, enquanto calçava os sapatos na porta do quarto. Namkhai Dorje disse: "Perdestes tua calçadeira? Está na campina perto do rio". O discípulo encontrou o que queria bem onde o mestre disse que estava.

Outra vez, ladrões entraram no templo do Mosteiro Dzogchen e roubaram jóias do pescoço de uma estátua muito alta. Todos ficaram perplexos, pois o templo era fechado, e as jóias pareciam inalcançáveis, tão alta era a estátua.

Quando Namkhai Dorje ficou sabendo do roubo, ele disse calmamente: "Conheço o ladrão". Ele entrou no primeiro andar, caminhou pelo parapeito dentro do templo, alcançou e retirou os ornamentos com uma vara longa.

Quando os monges foram checar, eles encontraram as marcas da passagem do ladrão e a vara, que havia sido deixada no parapeito. Apesar disto, Namkhai Dorje recusou-se a revelar a identidade do ladrão, pois o homem seria punido severamente se encontrado.

"Ele precisa de nossas orações, não de nossa punição", disse o idoso lama benevolente. "Possam as jóias do Buda concederem a ele o tesouro da completude eterna e paz interior."


"Cachorro Velho"

Dza Patrul Rinpoche era conhecido por sua maneira direta de falar e por seu desprezo pela pompa e hipocrisia. Patrul Rinpoche foi o principal discípulo de Jigmé Gyalway Nyugu, o sucessor de Jigmé Lingpa.
Patrul também estudou e praticou sob a direção pessoal do louco iogue iluminado Doe Khyentse Yeshé Dorje. Sob a orientação destes mestres, Patrul se tornou herdeiro de todos os ensinamentos orais profundos da escola Dzogchen Nyingthig (Quintessência da Grande Perfeição).

Doe Khyentse Rinpoche vivia nas matas, carregando um rifle de caçador, que ele supostamente utilizava para iluminar os outros. Foi um mestre mercurial, a quem Jamyang Khyentse Wangpo, o primeiro grande Khyentse, reconheceu como seu igual. Quando Doe Khyentse morreu, o clarividente primeiro Khyentse sentiu o que havia ocorrido longe dali. Com reverência, ele disse: "Agora aquele velho vagabundo dissolveu-se em mim".

Patrul Rinpoche já havia sido apresentado à natureza da mente búdica inata por Gyalway Nyugu quando, um dia, Doe Khyentse perseguiu-o com certas afirmações provocativas sobre como as coisas realmente são. Primeiro, Doe Khyentse zombou de Patrul: "Ô, seu heroizinho do Darma, por que manténs essa distância respeitosa? Se é que tens alguma coragem, vem aqui!".

Quando Patrul aproximou-se, Doe Khyentse agilmente agarrou-o por seu cabelo longo trançado e jogou-o no chão, chutando terra em cima dele. Sentindo cheiro de cerveja no hálito do lama, Patrul concluiu que o mestre estava bêbado e perdoou o tratamento recebido.
Doe Khyentse leu seus pensamentos e ralhou bem alto com ele:

"Esses intelectuais!", ele berrou. "Como podem pensamentos mundanos como estes entrarem nessa sua cabecinha? Tudo é puro e perfeito, cachorro velho!" Dando uma banana a Patrul — no estilo tibetano, usando o dedo mindinho — cuspiu nele e cambaleou, retirando-se desgostoso.

Instantaneamente, tudo ficou claro como cristal para Patrul. Ele experimentou a absoluta inseparatividade entre nossa própria mente e a mente não dual do Buda, a infinita luminosidade do estado desperto atemporal. Enquanto isso, o sol lá em cima brilhava num céu perfeitamente azul.

Experimentando uma paz indizível, Patrul instintivamente sentou para meditar naquele mesmo lugar, precisamente onde seu intempestivo mestre havia desvelado a natureza absoluta da mente.

Mais tarde, Patrul Rinpoche disse: "Graças a peculiar gentileza do Senhor Khyentse, agora meu nome Dzogchen é Cachorro Velho. Sem querer ou precisar de qualquer coisa, eu apenas caminho livremente por aí".


As Instruções Orais do Buda Primordial

O siddha (adepto tântrico iluminado) Gyalwa Jangshub predisse que Patrul Rinpoche, uma legítima encarnação de Avalokitesvara (Chenrayzig, o Buda da Compaixão), iria a Dergé no Tibete oriental e que aqueles com percepções comuns, iludidas, não o reconheceriam, percebendo somente um mendigo em trapos, apenas um errante pedindo esmolas por ali... e assim aconteceu.
As "Instruções Orais do Buda Primordial" ("Kunzang Lamai Shalung", em tibetano, [publicado sob o título "The Words of my Perfect Teacher", em inglês]) é um dos mais renomados escritos de Patrul, um livro popular e original de muitas centenas de páginas.

Certa vez Patrul Rinpoche estava caminhando pelas montanhas próximas a Katog, na província de Dergé, onde há várias grandes stupas (grandes monumentos em forma de sino que servem como santuários para as relíquias sagradas dos patriarcas budistas). Patrul encontrou ali a hospitalidade de um velho lama de Gyarong.

Patrul e o lama conversaram. O lama de Gyarong disse ao anônimo Patrul, que lhe parecia apenas um sincero mendigo religioso: "Pareces interessado nos ensinamentos budistas. Conheces algo de sua pratica efetiva?".

O incomparavelmente erudito e realizado Patrul respondeu: "Um pouco, apenas umas coisinhas aqui e ali, de que fui bem-afortunado o suficiente para ouvir no passar dos anos. Por certo o Darma sublime é inimaginavelmente vasto e profundo".

O monge disse a Patrul: "Ouça, tenho aqui um texto maravilhoso que explica completamente os fundamentos da doutrina budista; é cheio de contos interessantes e revelações compassivas. Foi recentemente escrito pelo professor iluminado Patrul Rinpoche. O livro chama-se 'As Instruções Orais do Buda Primordial'. Explicarei-o para ti, se quiseres".

Patrul Rinpoche pareceu gostar da idéia. O idoso lama ensinou-lhe sobre as quatro contemplações que retiram a mente do samsara e outros tópicos dos capítulos iniciais do livro, que contêm as instruções essenciais da linhagem oral, que o próprio Patrul havia reunido. O lama estava satisfeito por ter um estudante atento, e explicou tudo em detalhes, para deleite mútuo.

Poucos dias depois, todos ficaram sabendo que o ilustre Patrul Rinpoche iria dar ensinamentos bem perto, no mosteiro de Katok. O próprio Patrul passou uma grande parte do tempo circumambulando as stupas, as quais ele percebia, através de sua visão sagrada, como o local de todos os iluminados do passado, presente e futuro. Alguns monges de Dzachuka, que também estavam circulando as stupas, viram-no ali; reconhecendo-o imediatamente, eles prostraram-se na terra. Todos regozijaram-se: o glorioso Dza Patrul havia chegado!

Aquela noite o lama de Gyarong retornou do mercado. Ele disse a todos na casa, maravilhado, que o próprio Patrul estava na área de Katog e que logo chegaria ao mosteiro. Virando-se para o mendigo anônimo, o lama disse: "Não é esplêndido que o autor iluminado desse mesmo livro que estamos estudando esteja tão próximo?".

Patrul pareceu pouco impressionado. "Talvez seja ele, mas por outro lado talvez não... Quem pode dizer? Afinal, o que há de tão especial a respeito de Dza Patrul? Ele provavelmente é apenas mais um lama da cidade. 'É melhor reverenciar os ensinamentos do que o professor', como disse o Buda."

O lama bateu nele, berrando: "Como ousas falar dessa forma a teus superiores? Devo mandar-te embora dessa casa direita! Devias ter mais respeito por nosso professor gracioso, o Buda vivo Patrul Rinpoche".

Dois dias mais tarde, Patrul subiu ao decorado trono de ensinamento no mosteiro de Katog, perante uma assembléia de milhares. Quando o lama de Gyarong viu seu estudante temporário sentado no trono, imediatamente percebeu o que havia acontecido. Ele fugiu envergonhado e nunca mais foi visto em Katog.

Mais tarde, Patrul foi relembrado da história. Ele sorriu e disse: "Isso é muito ruim mesmo. Talvez ele realmente tenha ficado bravo comigo; mas mesmo assim deu excelentes ensinamentos das 'Instruções Orais do Buda Primordial' a respeito das quatro contemplações que livram a mente do samsara, sobre as quais eu nunca me canso de refletir a respeito. Eu espero sinceramente e rezo para que meu gentil professor, o lama de Gyarong, encontre a paz sublime, e que todos os seres ligados a mim iluminem-se juntos".



Um Ladrão é Convertido

Quando Patrul Rinpoche ensinou o Bodhicharya-avatara em Zhamthang, um velho ofereceu-lhe uma peça de prata moldada na forma de uma ferradura. O homem tinha poucas posses, mas sentindo grande fé em Patrul, sabia ser meritório fazer uma oferenda.

Depois de uma semana de ensinamentos, Patrul deixou o distrito. Um ladrão, que havia visto Patrul receber a ferradura, seguiu-o com a intenção de roubá-la.

Patrul caminhava sozinho, sem nenhuma outra motivação além de passar suas noites em paz sob as estrelas. Naquela primeira noite, o ladrão escondeu-se na escuridão enquanto Patrul dormia. Perto de Patrul jazia uma pequena bolsa de tecido e uma tigela de barro. Cuidadosamente o ladrão começou a explorar as roupas de Patrul.

Suas mãos acordaram o lama, que exclamou: "Ka-ho! Que estás fazendo, mexendo em minhas roupas?"

O ladrão respondeu alarmado: "Alguém te deu uma grande peça de prata. Passa ela para cá!".
"Ka-ho!", gritou o mestre. "Olha que confusão fizeste de tua vida, correndo por aí como um louco! Vieste até tão longe só por causa daquela prata — idiota! Ouça: vai agora e, pela aurora, alcançarás o montinho de grama onde sentei... A prata está ali perto. Utilizei-a como uma pedra para apoiar minha tigela. Olhe nas cinzas da fogueira do acampamento."

O ladrão duvidou, mas viu que a prata não estava mais com Patrul. Parecia muito improvável que a ferradura estivesse abandonada no acampamento; apesar disso, ele voltou para conferir. Quando chegou onde o mestre havia ensinado, ele procurou e encontrou a prata, entre as cinzas da fogueira.

O ladrão ficou totalmente chocado e lamentou-se: "Ah-zi! Este Patrul é um lama de verdade, sem apegos mundanos, enquanto eu só ganhei mau carma pela intenção de roubar-lhe. Agora certamente irei para o inferno!".
Perseguido pelo remorso, ele dirigiu-se para encontrar Patrul novamente. Quando finalmente chegou, o mestre lhe perguntou: "Aqui de novo, louquinho! Eu te disse onde encontrar o que querias. O que queres agora?".

Muito agitado, o ladrão explicou, soluçando: "Não é isso — encontrei a prata. Mas pequei por conspirar contra ti, um verdadeiro ser espiritual! Estava prestes a surrá-lo e pegar tudo que tens! Ofereço minha confissão e imploro seu perdão".

Patrul o acalmou. "Não há necessidade de oferecer uma confissão ou pedir perdão. Apenas tenha um bom coração e ore para as Três Jóias (Buda, Darma e Sanga); isso será suficiente."

Mais tarde, quando outros descobriram o que havia acontecido, perseguiram e surraram o ladrão. Patrul Rinpoche berrou a eles: "Se machucam meu discípulo, é como se estivessem me machucando. Deixem-no em paz!".



Nyoshul é Apresentado às Coisas Como Elas São
Nyoshul Lungtok foi o principal discípulo de Patrul Rinpoche. Ele recebeu de seu mestre instruções pessoais em teoria e prática do Dzogchen por vinte e cinco anos, enquanto meditavam na natureza.
Darmakaya refere-se ao corpo sem forma do Buda, a verdade última, realidade ou natureza inata de todas as coisas. Vajra Sattva (Ser Adamantino) é a purificação branca do Buda.
O vazio-desperto é a abertura brilhante, sem centro, que é a luminosidade vazia do coração-e-mente despertos. Milarepa cantou: "A Natureza de Buda não pode ser encontrada procurando-se fora, portanto contemple a natureza de sua própria mente". A Mente-de-Buda refere-se à perfeição e transcendência inatas de nossa própria verdadeira natureza.

Certa vez Patrul Rinpoche vivia com alguns discípulos num descampado perto do Ermitério Nagchung. Era costume seu deitar-se toda noite ao céu aberto, olhando para cima. Ele praticava a Ioga Dzogchen de Olhar-o-Céu, uma meditação profunda na qual misturamos a mente com o infinito do espaço aberto.

Um dia, meditando dessa forma, Patrul chamou Nyoshul Lungtok, que estava por perto, perguntando se ele ainda não havia realizado a natureza essencial da mente desperta. O discípulo confirmou que não havia.

Então Patrul disse: "Não te preocupes. Não há nada que tu não possas saber! Não penses nisto". O mestre riu; eles então continuaram meditando.
Nyoshul Lungtok teve um sonho recorrente no qual Patrul Rinpoche desfiava uma bola montanhosa de linha negra, revelando em seu centro uma estátua dourada de Vajra Sattva. Uma noite Patrul chamou Lungtok para deitar perto dele. "Agora desfiaremos tudo", ele prometeu. "Fique acordado!"

Juntos eles fitaram o firmamento vasto e vazio. Longe ouviam os cães latindo no Mosteiro Dzogchen.
Dza Patrul disse a Nyoshul Lungtok: "Amigo, ouves os cães latindo?".
"Sim", respondeu Lungtok.
"É isto!", o mestre exclamou. Então perguntou: "Vês as estrelas no céu?".

Lungtok novamente respondeu afirmativamente.

Patrul exclamou: "É exatamente isto! É tudo atenção iluminada intrínseca, Mente-de-Buda. Não desvie o olhar!".
Então ali, na escuridão, o olho de sabedoria não-dual de Lungtok abriu-se. Naquele mesmo momento sua própria mente e o Darmakaya estavam completamente inseparáveis; não havia nada para conhecer ou conquistar que não estivesse estado presente o tempo inteiro. Ele então chorou de alegria.

Dessa forma, Nyoshul Lungtok libertou-se da rede do apego dualista. Ele reconheceu e experimentou diretamente o vazio-desperto não-dual. Dali em diante, a Mente-de-Buda e sua própria atenção tornaram-se únicas e inseparáveis. Ele intuitivamente compreendia todas as experiências como o funcionamento da Mente-de-Buda e elevou-se acima da parcialidade e da limitação.

Como proclama o tantra chamado "O Rei das Deidades":
No veículo causal do caminho do sutra,diz-se que todos os seres sencientes são dotados do potencial
para alcançar a buditude.
No veículo da fruição, o caminho tântrico,
reconhece-se que a natureza essencial da
atenção intrínseca é buditude.
Anos mais tarde, o próprio Nyoshul Lungtok contou isto novamente, terminando com uma citação de Longchenpa:
Tudo está no estado de buditude primordial;
o reconhecimento disto é o despertar espiritual.
Os seis sentidos deixados no seu estado naturalcompõem a perspectiva da Grande Perfeição natural.
Regozijando-se em tudo, simplesmente
deixe-a como é
e descanse sua mente fatigada.


Lamas Anônimos

O Mosteiro Dodrup Chen está na região pouco povoada de Golok em Kham. Foi um dos principais centros para a prática dos ensinamentos Dzogchen do onisciente Jigmé Lingpa, o Longchen Nyingthig (Essência da Grande Perfeição). Jigmé Gyalway Nyugu e o primeiro Dodrup Chen Rinpoche foram os principais discípulos de Jigmé Lingpa; o discípulo deles, por sua vez, foi Patrul Rinpoche.
Mestres poderosos, realizados na prática da ioga de transferência de consciência, chamada Phowa, podem conduzir a essência de um ser humano falecido através da abertura no topo da cabeça, permitindo ao morto renascer nos campos-de-budas, que são paraísos ou Terras Puras. No momento da transferência, algumas manifestações externas, bem como algumas internas, geralmente ocorrem; estas são sinais do sucesso do empreendimento.
Um dia uma velha senhora jazia morta na cama. Os parentes enlutados viram três vagabundos passando — um velho, um homem de meia-idade e um jovem. Como o trio esfarrapado estava vestido em cores que lembravam os robes vermelho-escuros da ordem Budista, foram chamados — talvez fossem iogues errantes que, sendo pagos, poderiam executar os ritos apropriados para a falecida.

O chefe da família, um camponês, perguntou respeitosamente: "Podem ajudar nossa mãe falecida? Não há monges por aqui. Faremos oferendas".

O mendigo mais velho respondeu: "Não precisamos de oferendas, somente comida. Faremos o que for necessário para enviar sua velha mãe para os campos-de-budas". Os três começaram a preparar os bolos de centeio chamados tormas em preparação para os rituais Nyingthig que iriam realizar.

Os membros da família perceberam que os três esfarrapados pareciam saber exatamente o que estavam fazendo. Os mendigos falavam dos abençoados campos-de-budas como se conhecedores íntimos destas esferas sublimes. Surpresa, a família manteve-se em silêncio e reuniu farinha de centeio, água, manteiga, grãos, incenso, e tudo o mais que os homens pediam. Sua falecida mãe teria um funeral digno!

"Quem poderia imaginar que esses pobres errantes viriam nos ajudar assim?", a família exclamava, satisfeita com sua boa sorte inesperada. "Ao menos eles sabem preparar um belo espetáculo disso tudo!"

O mais jovem dos iogues agachava-se perto da fogueira, moldando as tormas para oferenda com mãos hábeis. A filha da casa, ao fazer suas tarefas de cozinha, tropeçou nele. Ela rudemente mandou-o sair do caminho, tratando-o com desrespeito, como se fosse um mendigo qualquer.

"Se lamas de verdade estivessem por aqui", a jovem mulher pensava para si, "eu não teria que conviver com estes três vagabundos. De qualquer forma, pelo menos eles sabem fazer um espetáculo ao realizar ritos funerais."

O jovem lama entendeu exatamente o que se passava por sua cabeça. Sorrindo benevolente e permanecendo em silêncio, ele completou sua humilde tarefa. Logo todas as preparações estavam terminadas.

Quando os três iogues começaram seu rito, um incrível silêncio preencheu o recinto. Um arco-íris apareceu acima da casa e, ao mesmo tempo, alguns cabelos caíram da cabeça do cadáver. Um calombo apareceu na sua abertura da coroa, do qual o princípio da consciência ejetou-se e transferiu-se para os campos-de-budas. A família inteira ficou assombrada. Nunca haviam esperado resultados tão dramáticos!

"Vocês realizaram um milagre!", o camponês exclamou. "Por gratidão, oferecemos três cavalos e um iaque para a viagem."

O mais jovem dos lamas falou diretamente: "Não queremos nada com cavalos, iaques e outros animais de carga. Três cavalos são somente três cavalos de problemas! Também não precisamos de nenhuma outra oferenda por fazer este serviço pela falecida. Mesmo que nos oferecessem todas suas posses, o que iríamos querer com elas?".

O dono da casa polidamente convidou-os para ficar e orar ali por três meses, três semanas, ou ao menos três dias. Então ele respeitosamente perguntou ao jovem lama quem suas companhias eram de fato, pois ficou óbvio que estes não eram três viajantes comuns.

O jovem lama respondeu: "Já ouviram falar do sucessor ilustre de Jigmé Lingpa, Dodrup Chen Rinpoche?".

O camponês ficou boquiaberto. Hesitante, ele aventurou-se a perguntar o nome do outro venerável lama. "Este é o renomado mestre Dzogchen Jigmé Gyalway Nyugu em pessoa", disse o jovem lama, não mencionando seu próprio nome.

Instantaneamente, a família prostrou-se no chão de terra, implorando perdão por sua ignorância. Relutantes em deixar partir tão santa companhia, eles acompanharam os lamas a pé por um dia.

O jovem lama era ninguém mais do que o vagabundo iluminado Patrul Rinpoche, cujos escritos originais e impecável integridade nos inspiram ainda hoje.



A Mulher de Patrul Rinpoche
Certa vez Patrul Rinpoche estava passeando pela vasta planície de Golok, no Tibete oriental ao norte de Dzachuka. Lá ele encontrou uma mulher miserável acompanhada por seus três filhos, cujo pai havia recentemente sido morto por um gigantesco urso vermelho. A pobre viúva lamentava-se e arrancava os cabelos.

Patrul perguntou para onde ela ia. Ela despejou a terrível história ao surrado mendigo em frente, concluindo: "Preciso chegar a Dzachuka e mendigar comida para minhas crianças. Haverá uma grande reunião de Darma lá. Certamente haverá muitas doações".

"Ka-ho! É um caminho bem longo", disse Patrul gentilmente. "Não vá sozinha; também estou indo para lá. Posso ajudar; vamos viajar juntos."

Por muitos dias caminharam. À noite dormiam sobre o brilhante céu estrelado. Patrul carregava uma ou duas crianças nas dobras de sua velha roupa de pele de ovelha, enquanto a mulher fazia algo parecido com a outra. Durante o dia, Patrul carregava uma criança nas costas, enquanto a mulher carregava a menor; o mais velho caminhava. Cada dia na aurora e no alvorecer eles preparavam chá no fogo do acampamento.

Os viajantes que encontravam pelo caminho pensavam ser eles meros mendigos. Ninguém — muito menos a traumatizada viúva — teria adivinhado quem realmente o nômade que levava sua criança nas costas era. Quando a viúva mendigava nos casebres que encontravam no caminho, Patrul fazia o mesmo, reunindo suficiente farinha de cevada torrada, manteiga, iogurte e queijo de iaque para sobreviverem.

Finalmente chegaram a Dzachuka. A viúva foi mendigar sozinha; Patrul fez o mesmo.
Mais tarde, Patrul parecia descontente. A viúva perguntou o porquê de seu comportamento incomum. "Não é nada. Tenho algo a fazer, mas a fofoca daqui torna difícil para mim fazer o que tenho que fazer."

"Que tipo de trabalho poderias ter aqui?", a mulher perguntou surpresa.
Patrul respondeu sorrindo: "Não importa. Vamos".

A pequena família logo alcançou a parte externa do mosteiro ao lado da colina. Patrul repentinamente parou, virou-se para a mulher e disse a ela: "Preciso ir; podes vir também, depois de alguns dias. Farei uma pequena peregrinação pelo mosteiro e te esperarei lá".

Isso realmente não era o que a mulher tinha em mente. Nessa altura ela já tinha ficado bem apegada ao ar de força gentil e espontaneidade que circundava sua recém achada companhia e a inexplicável paz e sensação de bem-estar que substituiu sua dor desde que se juntou a Patrul na estrada.

Ela reclamou: "Não fale bobagem! Vamos ficar juntos. Até agora fostes tão gentil — não nos abandone. Poderíamos casar, ou ao menos eu poderia ficar contigo, para me beneficiar de tua proteção. Não sei por quê, mas me sinto muito bem contigo".

O mestre, porém, já tinha tomado sua decisão. "Não vai dar. Até agora te ajudei como pude, mas as pessoas por aqui são fofoqueiras. Não podemos ficar juntos. Venha em alguns dias e me encontrará no mosteiro." Então Patrul caminhou com passo determinado para a colina. A mulher e as crianças ficaram para trás, mendigando comida.

No outro dia, o vale inteiro estava cheio notícias: "O mestre iluminado Patrul Rinpoche chegou — ele estará ensinando sobre o Bodhicharya-avatara!". Todos os fiéis correram para o mosteiro, guiando iaques carregados com tendas e provisões para uma estada longa, de forma a receber os ensinamentos sublimes.

Ouvindo estas notícias e observando a comoção geral, a viúva ficou alegre. Ela pensou: "Um lama tão famoso veio; esta é uma verdadeiramente afortunada ocasião para fazer uma oferenda em nome do meu falecido marido". Imediatamente ela apressou-se na direção do mosteiro com as três crianças e as oferendas de sua mendicância em mãos.

Quando chegou, Patrul Rinpoche havia instruído os monges e lamas: "Separem todos os alimentos oferecidos a mim; tenho um convidado chegando e ele precisará deles". Patrul era reconhecido por nunca aceitar oferendas ou acumular posses e riqueza de qualquer tipo; por isso, os monges surpreenderam-se, mas não tinham outra escolha além de seguir suas ordens.

A viúva chegou e encontrou um assento num canto da grande assembléia, bem longe do trono do lama. Ela ouviu tudo sem reconhecer o eloqüente Patrul daquela distância. Finalmente, quando a palestra do dia estava completa, e as orações, bênçãos e dedicação de mérito haviam sido proclamadas, a mulher aproximou-se do trono de forma a receber a benção pessoal do lama. Ali, ficou chocada ao descobrir sua fiel companhia de viagem sorrindo benevolente.

A surpresa viúva reverentemente pediu o perdão do mestre: "Por favor, conceda-me o perdão por não ter te reconhecido, por te fazer carregar meus filhos, propor casamento, e o resto!", ela chorou.
Patrul Rinpoche riu e disse para ela não se preocupar. Então virou-se para seus ajudantes e disse: "Aqui está minha convidada. Ela me ajudou a chegar aqui. Dê a ela toda manteiga, queijo e outras provisões que separamos. Cuidem para que ela tenha qualquer coisa que sua família preciso".



Faça Suas Próprias Oferendas
O professor de Patrul Rinpoche foi o ilustre iogue, o ultrajante mestre Dzogchen Doe Khyentse.
Tormas são bolos cônicos feitos de farinha torrada de centeio e são utilizados em vários ritos de oferenda. Estes bolos vermelhos e brancos simbolizam a união inseparável de meios hábeis e sabedoria, êxtase e vacuidade. Oferecer e, então, espalhar tormas representa a dispersão da ilusão do ego.

Certo dia Dza Patrul, passeando anonimamente disfarçado de mendigo, chegou para visitar seu mestre Doe Khyentse. Ao chegar, deparou-se com um lama fazendo tormas na cozinha do acampamento do mestre.

Quando Patrul Rinpoche perguntou ao lama se podia ver Doe Khyentse, o lama, olhando de lado para o mendigo esfarrapado diante dele, disse: "Oh, claro, marcarei uma entrevista para ti, não te preocupes. Enquanto isso, não te importarias de me ajudar com essas tormas?". Então o lama saiu, rindo sozinho, enquanto Patrul fazia os bolos para ele.

Como não encontrou manteiga para pintar a torma branca, mas bastante tintura vermelha para as vermelhas, o indiscutivelmente erudito Patrul pintou uma torma vermelha que — pelo formato — todos saberiam que deveria ter sido pintada de branco. Mesmo seu nome, kartor, significaria torma branca, exigindo que fosse branca... Mas agora era vermelha.

Quando o lama finalmente retornou, ele ficou satisfeito de ver que o mendigo havia feito todo seu trabalho... até que percebeu que uma kartor havia sido pintada de vermelho, e não de branco.

"Que burrice é essa?", berrou o lama.
Patrul Rinpoche gentilmente respondeu: "Poderias me dizer, bom senhor, a razão ritual pela qual ela não pode ser vermelha e precisa indiscutivelmente ser branca?".
"O quê!?", explodiu o lama, movendo seus olhos injetados vermelhos para cima, exasperado. "Não só esse imundo vagabundo faz esses erros idiotas, mas ainda por cima é sem-vergonha ao ponto de me questionar!". Então começou a surrar o mendigo e chutou-o para fora.

"Podes esquecer de encontrar Doe Khyentse enquanto eu estiver por perto!", berrou o lama para a esquiva figura de Patrul Rinpoche, que desapareceu na floresta.

Aquela noite Doe Khyentse Rinpoche perguntou se alguém havia vindo visitá-lo durante o dia, já que — devido a uma premonição que recebeu em um sonho — ele estava esperando ver seu protegido especial, seu filho espiritual Patrul Rinpoche. Seus seguidores informaram que ninguém havia chegado durante o dia inteiro.

Porém, quando o mestre clarividente insistiu que alguém deveria ter vindo, o lama que estava fazendo as tormas na cozinha finalmente falou, contando a Doe Khyentse que, de fato, um mendigo havia chegado à cozinha pedindo esmolas em troca de trabalho, mas que ele havia sido mandado embora quando cometeu o erro de pintar uma torma branca de vermelho!

"Aquele era Dza Patrul, tolo!", trovejou Doe Khyentse, que era conhecido por sua ira tanto quanto por sua sabedoria e compaixão. "Vá e traga-o imediatamente. Não quero ver ninguém até que o veja!".
Os servos tiveram que encontrar o mendigo e persuadi-lo a retornar, a convite explícito de Doe Khyentse.

Quando finalmente Patrul chegou à presença de seu mestre na manhã seguinte, Doe Khyentse colocou-o no trono de ensinamentos e reverentemente pediu para que elucidasse o texto clássico chamado "O Guia da Conduta do Bodisatva" (Bodhicharya-avatara), de Shantideva, cujos comentários de Patrul eram famosíssimos.

Perante uma vasta assembléia, Patrul Rinpoche expôs o clássico, explicando a Bodicita (a aspiração altruísta da iluminação) em especial, juntamente com todos os seus meios e sentidos. Então ele disse, enquanto seu envergonhado companheiro de pintura de tormas escondia sua cara vermelha sob seu manto monástico vermelho: "E apesar de todos hoje em dia falarem maravilhas sobre a mente altruísta da iluminação, ainda há alguns entre nós que nem sabem o significado das tormas rituais que estão pintando tão orgulhosos, porém sabem realmente como bater naqueles que os questionam".

Doe Khyentse gargalhou; através de sua clarividência ele sabia perfeitamente o que havia ocorrido na cozinha no dia anterior. Ele disse alto: "Maravilha! Um trecho de Shantideva que eu nunca tinha ouvido antes!".



A Sabedoria Pode Ser Contagiosa
Até recentemente Kham, no Tibete oriental, era uma terra inabitada, primitiva, não muito diferente do velho-oeste norte-americano de um século atrás. Não era incomum os clãs ali guerrearem uns contra os outros. A bandidagem reinava, e as regras feudais prevaleciam.
Paradoxalmente, já que havia poucas pessoas, a vida era simples, e o isolamento facilmente alcançado. Kham também foi por séculos um dos maiores centro de meditação e prática iogue do Tibete.
Bodicita (mente desperta) é um sinônimo da verdadeira grandeza de coração. Refere-se à mente iluminada imparcial e altruísta de um Bodisatva, um herói espiritual.

Patrul Rinpoche certa vez passeava sozinho nas montanhas rugosas próximas a Markhog, acampando ao ar livre. Ele meditava nos ensinamentos sobre Bodicita de Shantideva a respeito da aspiração altruísta pela iluminação. Era desejo de Patrul ser suficientemente livre de preconceitos para tratar os outros como a si mesmo.

Uma trilha suja e difícil cortava a cordilheira e ligava os vales de dois clãs inimigos. A sensibilidade meditativa do mestre solitário à violência que o cercava servia para inspirar suas orações e devoções compassivas.

Um dia, os lados guerreiros perceberam o vagabundo ao lado da trilha; perguntaram-se quem era ou quem pretendia ser. Encontraram Patrul deitado numa fissura estreita na trilha da montanha, onde todo o viajante via-se obrigado a passar por cima dele. Nessa posição incomum, Patrul podia orar para cada viajante individualmente, na esperança de pacificar suas emoções violentas.

Depois de um tempo, três cavalheiros armados chegaram ao desgastado mendigo, próximo a seu frio acampamento. Forçados a parar abruptamente seus cavalos e desmontar, eles exclamaram: "Estás doente, aleijado — leproso, talvez? O que há de errado contigo, deitado no caminho desse jeito?".

O despreocupado mestre respondeu: "Não se preocupem, jovens, não pegarão minha doença. É chamada Bodicita, e dificilmente passaria para saudáveis rapazes guerreiros!". Um pouco confusos, os três remontaram e foram embora.

Mais tarde, Patrul disse: "Talvez seja contagiosa, essa Bodicita imparcial, pois podemos pegá-la dos grandes praticantes espirituais. Mas, nestes dias, apesar de muitos dizerem que a possuem, poucos parecem realmente desenvolver seus sintomas de amor e compaixão altruísta incondicionais".

Então ele orou: "Possam todos os seres sem exceção serem infectados pela preciosa Bodicita".

Miraculosamente, o feudo sanguinário em Markhog logo terminou. O povo local dizia que os jovens guerreiros deveriam ter pego a doença infecciosa de paz daquele vagabundo iluminado anônimo que bloqueava a passagem na montanha, a quem nunca mais viram.



Uma Fortaleza Assombrada

Patrul Rinpoche ensinou o extenso clássico sânscrito Bodhicharya-avatara em detalhe, de memória, mais de cem vezes. Seu próprio comentário escrito, elucidando a essência da Bodicita e as Seis Perfeições, é um clássico tibetano.
Durante a segunda metade de sua vida produtiva, este mestre manteve o voto de jamais dormir sob um teto e vivia como um iogue mendicante. Patrul era vegetariano, nunca cavalgou ou explorou animais de carga, não acumulou posses ou séquito, e realmente incorporava a Grande Compaixão, Avalokitesvara.
Patrul era a reencarnação de Shantideva.

Em Nyarong havia uma fortaleza assombrada cujos espíritos eram ouvidos berrando alto, mesmo à luz do dia. Ninguém ousava chegar perto.

Uma vez, ao fim de alguns ensinamentos, Patrul Rinpoche disse que se alguém fosse na fortaleza e recitasse o Bodhicharya-avatara cem vezes, os espíritos se libertariam. Um discípulo próximo, Tsanyak Sherab, imediatamente ofereceu-se. Todos os nativos sacudiram as cabeças, temendo que nunca mais veriam o popular lama de novo — que pena!

Chegando na fortaleza assombrada, o corajoso Tsanyak Sherab jogou sua almofada no chão de um recinto vazio. Então gerou intensa compaixão e Bodicita altruísta, meditou na vacuidade, e começou a recitar alto os dez capítulos do Bodhicharya-avatara, de Shantideva.

Dia após dia, ele continuou. Quando os nativos viram fumaça saindo do fogo que Sherab acendeu para ferver água para o chá, eles exclamaram: "Ele não está morto!". Um dos mais bravos nativos reuniu sua coragem e foi ver o que havia acontecido na fortaleza assombrada.

Para sua surpresa, encontrou Sherab pacificamente ensinando a escritura para uma audiência invisível. Depois o homem voltou e relatou os fatos; dia após dia, mais nativos viajavam ao forte para ouvir. Quando Sherab estava alcançando sua centésima recitação do extenso livro, a vila inteira sentava em êxtase perante ele.

Misteriosamente, dali em diante, nenhum espírito gritou novamente. Ao contrário, freqüentemente as pessoas iam ali para rezar, meditar e ser inspiradas pela lembrança da presença de Patrul.



A Prata é um Veneno
Certa vez Patrul viveu em um vale onde as pessoas eram muito devotadas a ele. Um dia alguns eruditos khenpos (abades), juntamente com o filho do mestre dos tesouros Chogyur Lingpa, Tsewang Norbu, foram até seu retiro solitário de forma a receber ensinamentos; todos sentaram ao redor de Patrul em uma várzea cercada de flores silvestres.

No vale havia um homem que fervorosamente desejava oferecer a Patrul uma peça de prata na forma de uma ferradura do tamanho de uma pedra. Mas sabia que Patrul raramente aceitava oferendas.

O velho chegou repentinamente a cavalo, desmontou, prostrou-se três vezes, e colocou o pedaço de prata aos pés de Patrul. Ele gritou: "Aqui está uma oferenda. Por favor salve-me de renascer nos reinos inferiores!". Então ele saltou no cavalo e fugiu galopando, consciente de que se permanecesse, Patrul rejeitaria sua oferenda.

Tsewang Norbu pensou para si: "Patrul provavelmente utilizará esta oferenda para algum propósito meritório". Patrul, porém, nunca pegou o pedaço de prata. Quando completou seus ensinamentos, simplesmente levantou-se e saiu. Tsewang Norbu não podia deixar de pensar que teria sido melhor utilizá-la para algum propósito meritório, em vez de apenas deixá-la ali, mas manteve estes pensamentos para si.

Enquanto caminhava, olhou para trás várias vezes: a prata ainda estava ali, um ponto brilhante na várzea verde. Esta imagem permaneceu com ele enquanto desciam a colina, e um sentimento muito poderoso de cansaço com as coisas do mundo e renúncia surgiu dentro dele.

Tsewang Norbu pensou consigo mesmo: "Quando penso no meu gracioso guru e nas pessoas ao redor dele que totalmente renunciaram aos apegos ilusórios desta vida passageira, isso me faz pensar que deve ter sido exatamente assim durante a vida de Buda e seus arhats liberados".

Então lembrou uma história:
Certa vez o Senhor Buda e seus discípulos — incluindo Ananda, Kasyapa e outros — estavam caminhando quando viram uma grande pepita de ouro no chão. Enquanto passavam, um após o outro exclamava: "Veneno!".

Uma garotinha, que estava colhendo lenha ali por perto, ouviu isto. Depois que eles se foram, ela viu a pepita, sem saber exatamente o que era. Ela pensou: "Que estranho — aqui está uma peça bonita e bela de pedra amarela, e todos os estimados arhats pularam por ela e evitaram tocá-la, exclamando 'Veneno!'. Deve ser algo que eu também não devo tocar".

A criança correu para contar isso a sua mãe. "Hoje vi um tipo esquisito de veneno", ela começou, relatando o que havia ocorrido.

Sua mãe foi imediatamente checar. Ela achou o ouro, levou-o para casa e utilizou-o para patrocinar oferendas religiosas.

Como fogo, as notícias se espalharam de que o Buda e seus amigos renunciantes haviam intencionalmente evitado uma peça de ouro, deixando-a na relva, e além disso que a haviam chamado de veneno.
Tsewang Norbu sentiu-se muito edificado, inspirado por ver — que mesmo nos tempos modernos — seu professor Patrul Rinpoche espontaneamente seguia os passos de Buda.



Chuva de Flores
Certa vez Patrul Rinpoche ensinou o Tantra da Essência Secreta perto de sua caverna em Upper Doe. Entre seus discípulos estava um nômade idoso. Atravessando o rio no seu iaque todas as manhãs, ele voltava para casa toda noite.

Um dia uma chuva torrencial fez o rio transbordar. Apesar disso, o devoto ancião tentou cruzá-lo. Carregado pela forte correnteza, ele afogou-se. Alguns nativos carregaram seu corpo pela colina até Patrul.

"Ah-zi! Pobre senhor!", Patrul exclamou. "Ele morreu por seu desejo de receber ensinamentos. Devemos orar e fazer profundas aspirações para seu desenvolvimento futuro."
O cadáver jazia no chão perante o mestre compassivo. A mulher e os parentes do velho lamentavam-se ruidosamente. No Tibete oriental, a morte por afogamento é considerada especialmente de mau agouro, já que os nômades acreditam que quem morre assim renasce nos planos inferiores da existência.

"Por favor, proteja-o com sua compaixão infalível!", a angustiada viúva implorava repetidas vezes a Patrul, lamentando-se e chorando. "Livre-o dos tormentos do inferno."
Acompanhado por sua assembléia de discípulos, Patrul começou a cantar a prática de Phowa, que transfere a consciência do morto para os reinos mais altos na direção da liberdade e iluminação.

Um chuvisco gentil, que os tibetanos peculiarmente chamam de "chuva de flores", começou a cair, e delicadas nuvens nas cores do arco-íris começaram a formar-se. Olhando para o céu e depois para o cadáver, Patrul começou a gargalhar repentinamente, deixando a recitação inacabada. Os monges e lamas reunidos completaram o ritual sozinhos, mas ninguém ousou questionar Patrul.

Alguns dias depois, um discípulo respeitosamente perguntou: "Rinpoche, todos sabem que amabilidade e compaixão são os principais focos de sua meditação. Porque gargalhaste quando aquele velho nômade morreu?".

Patrul respondeu: "Aquele senhor era realmente digno de compaixão. Mas algo esquisito aconteceu ali".

"O que aconteceu?", o discípulo perguntou.

"Sentindo grande pena, orei para que renascesse num reino de deleites; instantaneamente o vi renascendo como um ser celestial no Paraíso dos Trinta e Três Deuses. Por gratidão pelo meu ensinamento do "Tantra da Essência Secreta", ele sorriu e lançou uma chuva de flores divinas sobre nós.

"Olhei para o cadáver enrugado de cabelos brancos em frente e para todos os parentes soluçando com medo do inferno — e não pude agüentar. Pensei para mim mesmo: 'Isto realmente é a ilusão de samsara!'. Então pensei: 'Vendo-me rir, estas pessoas pensam que eu sou estranho; vendo-as chorar, quando o velho homem já virou um ser celestial, penso que elas são estranhas. Isto também é a ilusão de samsara!'".



Viagens Tântricas
Choying Rangdrol era um mestre iluminado que não possuía bens mundanos. Dia e noite ele sentava numa almofada de meditação, vestindo somente uma pele solta de ovelha.Sem educação formal, ele havia atravessado o caminho do despertar. "Os iogues não querem e não precisam de nada além da natureza imutável do autêntico ser", ele cantava.

Um dia Patrul Rinpoche — que recebeu extensivos ensinamentos de Choying Rangdrol — estava sentado com o mestre de meditação, quando este perguntou: "Aliás, o que anda fazendo ultimamente Mingyur Dorje do Mosteiro Dzogchen?".

Patrul Rinpoche deu algumas notícias, Choying Rangdrol lembrou: "Estes caras do Dzogchen não tratam Mingyur Dorje do jeito que deviam. Se conhecessem sua real identidade, seria diferente. Um verdadeiro Siddha raramente revela todas suas qualidades intrínsecas".

Mais tarde, sem razão aparente, Choying Rangdrol disse: "Durante as grandes reuniões no Mosteiro Dzogchen, Mingyur Dorje senta num trono alto, não longe da porta, de frente para o centro; isto é meio esquisito, não é? O trono do professor costumava ser perto do altar".

Então ele continuou lembrando vários costumes e personagens do Mosteiro Dzogchen.
Por toda a conversa, Patrul Rinpoche — que havia estudado em Dzogchen — concordava, inclinando a cabeça, aparentemente compartilhando das reminiscências do mestre de meditação. Um jovem neófito, Pema Dorje, que estava presente (e que mais tarde tornou-se o principal khenpo [abade] do Mosteiro Dzogchen) pensou: "Como pode este lama analfabeto saber tanto sobre nosso mosteiro? Ele deve ter estado por lá durante sua juventude".

Finalmente o curioso rapaz perguntou ao mestre de meditação: "Venerável lama, tens ido ao Mosteiro Dzogchen?".
"Poderia dizer que sim", o mestre respondeu.

"Quando?"

"Todo ano eles realizam a cerimônia da Grande Reunião. Quando, do trono, Mingyur Dorje toca um pequeno tambor de marfim e canta a invocação: 'Vidyadharas, detentores do estado desperto atemporal, dakas, dakinis, venham com seus séquitos — venham e participem do banquete vajra', então todas as deidades da mandala universal, bem como os patriarcas da linhagem ancestral, têm que responder a este convite auspicioso. Portanto, foi assim que eu visitei Dzogchen. De outra forma, nunca visitei fisicamente teu mosteiro."

O jovem Pema Dorje percebeu que Choying Rangdrol era um siddha clarividente, com qualidades intrínsecas extraordinárias, e que podia transcender tempo e espaço. Cheio de fé, o menino curvou-se perante o mestre e recebeu sua benção.

Algum tempo depois, Pema Dorje seguiu Choying Rangdrol e Patrul à Buditude.


Mais Merda Nenhuma
Konchog Paldron era a filha e sucessora espiritual do Mestre dos Tesouros Chogyur Lingpa. Reconhecida como uma encarnação de Tara Verde, ela foi uma memorável professora e mãe de muitos tulkus, lamas reencarnados.

Konchog Paldron recebeu extensivos ensinamentos de muitos mestres iluminados, inclusive do Mestre Manjusri Jamyang Khyentse e do primeiro Jamgon Kongtrul. Porém, foram as compassivas instruções orais de Patrul Rinpoche que despertaram sua mente búdica inerente. Ela mais tarde transmitiu os ensinamentos Dzogchen de Dza Patrul para muitos praticantes.

Um dia, falando em verso, Patrul lhe disse:

"Não prolongue o passado,
Não convide o futuro,
Não altere sua atenção natural —
Não tema aparências.
Não há nada além disso!"
Ao ouvir estas palavras, Konchog Paldron inesperadamente vivenciou grande iluminação. Patrul havia falado em um grosseiro dialeto nômade. A frase final soava como "Fora isso, não há mais merda nenhuma!".

Isto ficou conhecido como "O Ensinamento Mais-Merda-Nenhuma". Tem sido passado de mestre a discípulo até os dias de hoje.


O Rei dos Fantasmas
Chogyur Lingpa e Dza Patrul eram jovens contemporâneos de Jamgon Kongtrul e Jamyang Khyentse Wangpo, que fizeram uma renascença budista no Tibete oriental do século dezenove. Ambos os mestres iluminados estudaram de uma forma não-sectária sob a orientação de muitos dos maiores mestres de seu tempo, recebendo transmissões de todos os ensinamentos sobreviventes e linhagens orais.
Diz-se que monges malvados renascem, em alguns casos, como reis fantasmas. Samaya refere-se aos votos e compromissos tântricos.

Certa vez Chogyur Lingpa disse ao abade Khenpo Rinchen Dargyé, um de seus principais discípulos: "Deverias ir a Dzachuca e receber ensinamentos de Patrul Rinpoche, especialmente o Bodhicharya-avatara, de Shantideva, que ele sabe de cor. Ele é um professor inesquecível, transborda sabedoria e bênçãos".

O Mestre dos Tesouros graciosamente deu a seu erudito discípulo uma carta de recomendação pessoal, dirigida a Patrul, dizendo: "Por favor, dê roupas, alimento e Darma a este meu orgulhoso discípulo".

Khenpo Rinchen Dargyé era um monge completamente ordenado, um exemplar detentor dos três veículos da tradição Budista: Theravada, Mahayana e Vajrayana. Pela sua aparência externa era um renunciante desapegado, um desabrigado monge seguidor do caminho, enquanto sua atitude interna era a de um bodisatva compassivo, cujos votos altruístas infalivelmente colocavam as necessidades dos outros diante das suas. Secretamente, ele era um desinibido praticante dos ensinamentos não-duais do Tantra Budista Vajrayana.

Carregando seus imaculados trajes monásticos num ombro, sua grande vasilha de esmolas nas costas e sua bengala de mendicante na mão, finalmente o khenpo, depois de muitos dias a pé, chegou à presença de Patrul. Enquanto o venerável abade prostrava-se perante Patrul, este exclamou: "Ah-yii! Aqui está o rei dos fantasmas!".

Então levantou-se rapidamente, sem dar chance a Khenpo Rinchen Dargyé de oferecer as três prostrações formais. Rinchen Dargyé mal conseguiu apresentar sua carta de apresentação, que Patrul jogou num canto escuro, antes de ser expulso da cela espartana do lama.

No outro dia, reunindo sua coragem, o khenpo novamente apresentou-se a Patrul, o vagabundo iluminado. Ele pediu instrução espiritual e orientação, especialmente ensinamentos sobre a "Entrada no caminho do Bodisatva", o Bodhicharya-avatara, como seu professor Chogyur Lingpa havia instruído.

Patrul replicou: "Não posso dar-te estes ensinamentos. Não sou professor; não há nada que eu possa fazer por uma pessoa importante como tu. Que queres de um velho tolo que nem eu?". E o khenpo foi novamente expulso do recinto.

Na manhã seguinte, Rinchen Dargyé renovou seu pedido. Patrul disse a ele: "Bem, fique por aí; então veremos".
Por um mês, o implacável Patrul não pronunciou uma palavra sequer de instrução na presença do khenpo. Rinchen Dargyé aparecia diariamente, prostrava-se ao mestre e sentava alimentando esperanças e bebendo chá fraco — finalmente ia embora.

Sendo uma das mais altas regiões de Kham, Dzachuka era fria e assolada por ventos. O rigores incomuns da montanha rugosa de Patrul provaram-se inconfortáveis para o elegante abade. Finalmente Rinchen Dargyé confessou ao mestre: "O Mestre dos Tesouros Chogyur Lingpa enviou-me para receber ensinamentos de ti. Mas se não vais me conceder nem uma palavra de conselho ou instrução, devo retornar a ele de mãos vazias. Porém, se, por preocupação compassiva, tu gentilmente consentires em me ensinar, por favor saibas que tenho fervorosa fé tanto em ti quanto na linhagem impecável que representas e corporificas. Eu realmente desejo praticar teus ensinamentos ao ponto mais alto. Não tenho votos monásticos quebrados, nem samaya Vajrayana danificado, e tenho purificado todos os pensamentos invertidos. Por favor, ensina teu servo humilde!". O famoso abade e erudito continuava a assediar o mestre vestido em trapos de ovelha.

Sem dar muita atenção a esta fala elaborada, o lacônico Patrul replicou despreocupado: "Tá, volta amanhã".
Na manhã seguinte, quando Rinchen Dargyé apareceu, Patrul deu a ele um robe monástico dizendo: "Aqui está a roupa". Então presenteou o abade com uma perna de carneiro. "Aqui está a comida", ele disse. Enfim, Patrul presenteou o khenpo com um volume do Bodhicharya-avatara, dizendo: "Aqui está o Darma".

Então o provocativo mestre concluiu: "Pois é, agora tu já recebeste roupa, comida e Darma, como queria o Mestre dos Tesouros. Amanhã deves ir".

Profundamente desapontado, Rinchen Dargyé prostrou-se perante Patrul no chão de terra, curvando-se várias vezes, fervorosamente gritando: "Por favor, dá-me ensinamentos!".

Patrul disse impassível: "Chogyur Lingpa disse para te dar roupa, comida e Darma. Já te dei; é isso".
Porém, Rinchen Dargyé persistiu implorando a Patrul para libertá-lo da ilusão através dos preciosos ensinamentos, para benefício dele e dos outros.

Finalmente, quando intuiu que Rinchen Dargyé estava maduro, o mestre sutilmente começou a ensinar. Continuou por muitos meses. Khenpo Dargyé rapidamente progredia, finalmente tornando-se um dos grandes mestres de seu tempo.

O khenpo ficou eternamente grato a Patrul pelas lições pessoais que recebeu — não somente pelos ensinamentos formais, mas também pelos modos bruscos e dureza que o mestre continuou a mostrar, de forma a eliminar o orgulho e pretensão de Rinchen Dargyé.

O khenpo sempre contava que Patrul o havia chamado de "Rei dos Fantasmas" no primeiro encontro e que o havia purificado por fazê-lo esperar tanto, porque percebeu que Rinchen Dargyé estava afetado por um resíduo oculto de auto-estima, por ser um erudito e monge exemplar.



Relíquias de Cabelos Sagrados
Patrul Rinpoche não gostava de bajuladores. Quando este mestre direto, franco, realista e imparcial percebia puxa-sacos, ele chamava-os de "mentes desviadas".Os lamas freqüentemente amarram cordinhas vermelhas em volta dos pescoços de seus seguidores, como proteção e benção. Acredita-se que o cabelo, unhas, roupas e assemelhados dos lamas contêm bênçãos comunicáveis aos fiéis; portanto, são preservados e mantidos.

Um dia, um lama chamado Longna Tulku veio visitar Patrul Rinpoche. Enquanto Longna Tulku prostrava-se na porta, Patrul Rinpoche observou brincalhão: "Parece que alguém está prostrando-se aqui — por que será?".

Longna (que significa bambu d'água) apresentou-se. "Ah-zi!", exclamou o mestre. "Que tempos estranhos vivemos; agora até os bambus tem tulkus!".

Gargalhando, Longna retrucou: "Bem, se podem haver tulkus 'troncos', por que não 'bambus-d'água' — pelo menos é madeira verde e viva!". Foi um inteligente trocadilho com o nome da reencarnação do guru de Patrul, Dza Trama Tulku, pois "trama" pode significar tanto pedaços pequenos de madeira seca quanto um lugar no Tibete oriental.

Patrul não disse nada. Ele ficou obviamente satisfeito com a resposta do lama. E sabia que seu visitante tinha incomensurável respeito pelos praticantes do Dzogchen.

Logna Tulku sentou-se aos pés de Patrul. Enquanto conversavam, ele pegou discretamente alguns cabelos humanos do tapete para manter como relíquias. Percebendo o que seu visitante estava fazendo, Patrul rosnou: "Qual é a tua?".

Sabendo que Patrul Rinpoche não aprovaria seus cabelos perdidos sendo feitos de relíquias, Longna Tulku charlateou: "O gado de meus discípulos foi atingido por uma epidemia, e os lobos sempre os atacam. Se eu amarrar estes cabelos em volta de seus pescoços, isso os protegerá".

Patrul Rinpoche não se deixou enganar. Porém, consciente da sinceridade do visitante, não somente deixou-o juntar o cabelo mas também tirou uma peça de roupa que estava vestindo e deu-a Longna — uma cortesia especial, sem dúvida.

"Aqui esta uma proteção para o teu rebanho", ele gesticulou gentil. "Com um pastor malandro assim para cuidar deles, eles precisam de toda proteção que conseguirem!"



Nome e Fama

Na idade madura, Jamyang Khyentse Wangpo resolveu nunca mais sair de seu quarto. Ele iria permanecer seus restantes quarenta anos meditando e rezando em retiro. "Jamais cruzarei a porta dessa casa", ele disse.

Depois de tomar este voto, Khyentse deu os sapatos a seus criados. Eles foram deixados num rio próximo.

Uma manhã, alguns anos depois, o clarividente Mestre Manjusri inesperadamente instruiu seus criados a receber quem quer que quisesse visitá-lo.

Mais tarde, naquele dia, um vagabundo anônimo apareceu. Ele foi direto para a ala pessoal de Khyentse Rinpoche e largou sua surrada mochila feita à mão no canto da cozinha. "Vim ver Ngédon. Onde está Ngédon?", ele perguntou.

Os servos imediatamente ofenderam-se. Esqueceram-se completamente das instruções do mestre. Quem era esse vagabundo maltrapilho para insultar seu glorioso mestre chamando-o pelo seu nome de família, Ngédon?

Ordenaram que o mendigo se fosse. "O mestre está em meditação profunda", disseram ao mendigo. "Talvez outra hora!"

O mendigo falou bruscamente: "Ele realmente é tão importante agora! Quando éramos jovens, eu dividia meu queijo com ele, e agora nem consigo passar por seus criados! Não tenho tempo a perder". E começou a partir.

Repentinamente os servos lembraram das instruções incomuns. Apressadamente, perguntaram o nome do mendigo. O impaciente Patrul, já de saída, gritou, "Orgyen" — o nome de Padma Sambhava (bem como seu próprio) — sobre seu ombro e desapareceu nas colinas.

Naquela noite, Khyentse Rinpoche perguntou se alguém havia aparecido para visitá-lo. Um criado respondeu: "Só um velho vagabundo enjoado, que insultou seu nome. Ele grandiosamente chamou a si próprio Orgyen e não quis esperar".

"O quê?!" exclamou Khyentse Rinpoche. "Não o deixaram entrar? Aquele era meu irmão do Darma Patrul Rinpoche, Orgyen Chokyi Wangpo. Encontrem-no e tragam-no aqui."

Os criados humilhados, finalmente, depois de uma longa e cansativa busca, encontraram Patrul acampado na floresta bem longe do vale. Prostrando-se, eles muito se desculparam e convidaram-no para ser o convidado de honra de seu venerável mestre. Gargalhando, Patrul respondeu que estava ocupado demais meditando para atender convites sociais.

Aquele foi o último contato direto entre os lendários parceiros. Apesar disso, um sempre sabia das atividades do outro, e freqüentemente presenteavam seus discípulos com histórias e piadas a respeito um do outro.



Grãos de Arroz

É costume no Tibete esculpir mantras em pedras. Estas são então empilhadas em locais especialmente escolhidos — os quais podem ser considerados como pontos de acupuntura da terra — para encorajar a paz mundial tanto como para servir de benção para quem quer, homem ou animal, que se defronte com elas. São conhecidas como pedras mani, já que o mantra mais freqüentemente utilizado é o da Grande Compaixão, Om Mani Padmé Hung.
Para abençoar e consagrar, os lamas freqüentemente sussurram orações e sopram com seu hálito sagrado sobre arroz cru tingido de açafrão ou de cores de arco-íris, o qual é então jogado sobre o objeto da benção, seja animado ou inanimado. Através da perfeita visualização pelo mestre de cada grão transformando-se em o que quer que os seres sencientes queiram ou precisem, grandes benefícios são assegurados.
O recente líder Nyingmapa (Escola da Tradução Antiga), Sua Santidade Dudjom Rinpoche, certa vez abençoou um mosteiro novo em Mysore, no sul da Índia, doente de sua cama em Kalimpong. No momento combinado, quando a consagração pública muito esperada estava para acontecer, Sua Santidade jogou arroz cor-de-arco-íris em Kalimpong, e grãos cor-de-arco-íris de arroz caíram no recém construído e longínquo Mysore — realmente uma benção milagrosa.

Patrul Rinpoche geralmente viajava anônimo. Quando reconheciam sua grandiosa espiritualidade, as pessoas espontaneamente requisitavam bênçãos e ensinamentos. Garantindo o que quer que fosse preciso, ele geralmente continuava solitário, deixando para trás quaisquer oferendas que tivesse recebido.

Jamyang Khyentse veio a perceber este comportamento desapegado. Mandou uma mensagem a Patrul: "Por que te desfazes do que teus discípulos e patronos te dão? Não seria melhor utilizar essa riqueza para projetos virtuosos?".

Patrul tinha o maior respeito pelo Mestre Manjusri, a quem reconhecia como um Buda vivo. Portanto, dali em diante, Patrul ofereceu aos mendigos o que quer que acumulasse. Ele também utilizava os presentes para patrocinar a escultura do mantra Om Mani Padmé Hung em pedras.

Finalmente aconteceu que, de milhares dessas pedras, formou-se um longo muro. Deleitado, Patrul mandou uma mensagem a Khyentse Rinpoche: Quem sabe poderias consagrar a parede mani? Uma mensagem retornou, dizendo que Jamyang Khyentse abençoaria a grande parede numa data auspiciosa muito próxima.

Todos regozijaram-se. O Mestre Manjusri estava vindo! Um festival religioso foi planejado naquele dia.

No dia combinado, todos reuniram-se em antecipação pela chegada de Khyentse Rinpoche. Patrul advertiu para não haver desapontamento caso o grande mestre não aparecesse em pessoa, já que ele estava em retiro há dez dias de viagem. Além disso, ele explicou: "Jamyang Khyentse pode consagrar essas pedras mani a distância tão bem quanto se estivesse aqui em pessoa, através do poder de suas orações e bênçãos. O que quer que aconteça, não se surpreendam".

Imediatamente, uma chuva começou a cair. Ela jorrava triunfante sobre a grande pilha de pedras, fluindo através das incontáveis inscrições. Arco-íris brilhantes enfeitavam o céu. Flores divinas e arroz cor de açafrão caíram sobre as pedras tanto quanto na assembléia reunida, enquanto, na hora combinada, a consagração extraordinária acontecia, apesar do Mestre Manjusri não ser visto em lugar algum.

Patrul Rinpoche bateu palmas em deleite. Curvou-se na direção da longínqua residência de Khyentse Rinpoche e — sem nenhuma palavra — continuou seu caminho humilde e solitário.

Cada um que comeu um só grão daquele arroz milagroso ou uma só das suculentas flores, mais tarde, renasceu numa esfera celestial, para finalmente atingir a liberação.



As Vidas Passadas de Patrul
Na linhagem da prática, em que teoria é menos importante do que a prática espiritual de fato, diligência é mais importante do que intelecto, e meditação é mais enfatizada do que o mero aprendizado, Patrul Rinpoche estava entre os maiores eruditos entre os sábios iluminados; porém, foram seu rude estilo de vida, franqueza, simplicidade, humor e calor humano que o mantiveram vivo através de sucessivas gerações.

Certa vez Patrul meditava na Caverna de Yamantaka mais baixa, próxima ao Mosteiro Dzogchen. Na caverna superior, residia um praticante simplório de Gyalmo Rong, quase analfabeto. Ele também praticava a meditação solitária.

Um dia, Patrul provocou-o brincando. "Se praticamos em um lugar como este, longe das distrações, a atenção intrínseca torna-se naturalmente clara. Então, é fácil perceber deidades, relembrar vidas passadas, etc. Tens estas experiências?"

"Nunca!", respondeu o solitário inocente. "E tu, as tem?"

"Pra dizer a verdade", contemplou Patrul, "Eu ocasionalmente lembro-me de centenas de minhas vidas passadas."

"Fale-me sobre suas existências", implorou o eremita. "Certamente isso beneficiará minha prática de meditação."

"Em uma vida fui uma prostituta na Índia, na vila onde o grande sábio negro Krishnacarya vivia", disse Patrul. "Movida por fé, ofereci-lhe um bracelete de ouro puro. Depois disso, nunca mais nasci um caipira, mas tenho tido a boa-sorte de me tornar um pandita [doutor em Budismo]."

"Infelizmente não tenho nenhum ouro para te oferecer", disse o recluso, que podia não ser tão tolo quanto parecia. "De qualquer forma, aspiro somente à iluminação, não erudição."

"E eu não sou um mestre como Krishnacarya!", gargalhou Patrul. "Que droga!"



Um Grande Banquete

Patrul Rinpoche e seu discípulo Nyoshul Lungtok estavam em Doyul, meditando num retiro solitário nas montanhas. De tempos em tempos, outros discípulos juntavam-se a eles.
Ouvindo que seu mestre mercurial Doe Khyentse estava num vale perto dali, Patrul disse a Lungtok: "Vamos dar uma caminhada".

Logo chegaram a uma vasta planície. Longe, perto de um grande lago, viram um acampamento de tendas brancas. Incontáveis ovelhas pastavam perto dali. Aqui estavam Doe Khyentse, acompanhado pelo segundo Dodrup Chen; eles pastoreavam ovelhas até Datsedo, como faziam todos os anos. Patrul ergueu as mãos na direção deles com as palmas juntas em reverência.

Chegando nas tendas, encontraram uma cena movimentada. Um criado levou-os diretamente a Doe Khyentse Yeshé Dorje, que estava sentado, vestido com pele de ovelha branca, seu rifle ao lado e seus cães caçadores a seus pés. Nas redondezas, estava Dodrup Chen Rinpoche, também vestido de branco.

Com uma grande faca de caça, Doe Khyentse simultaneamente raspava e comia grandes pedaços de carne. Deleitado ao ver Patrul, convidou os recém chegados para sentar num belo tapete tecido à mão.

Então chamou um criado e ordenou o abate de uma ovelha para os visitantes.

Patrul era conhecido por sua não-violência. Ele jamais machucaria uma criatura viva, nem mesmo o menor dos insetos. Além disso, ele cansativamente repudiava o costume nômade de abater rebanho de forma a fazer banquetes para festividades Budistas, e proibia a matança de animais em suas visitas. Ao contrário da maioria dos tibetanos, Patrul era vegetariano.

O criado fez como instruído. Quando retornou, ofereceu o melhor corte a Patrul, que aceitou com entusiasmo. Nyoshul Lungtok, porém, comovido por compaixão pela ovelha, teve que se forçar a comer, de forma a não ofender seu exaltado anfitrião.

Lendo a mente de Lungtok, Doe Khyentse jogou um grande pedaço de carne em seu colo. "Aqui — este é pra ti!", ele exclamou. Patrul continuava comendo em silêncio.

Quando a refeição terminou, Patrul pediu a iniciação de dakini Longchen Nyingthig, chamada "Rainha do Grande Êxtase." Doe Khyentse disse: "Tenho mantido esses ensinamentos secretos, mas agora chegou a hora; hoje concederei-os a ti. Viverás oitenta anos e ajudará a todos que encontrares. Apenas ouvir teu nome fechará as portas para o renascimento nos reinos inferiores".

Finalmente Patrul e Lungtok foram embora. Olhando para trás de uma passagem montanhosa, eles viram um pontinho branco no grande pasto aberto, que era o grande rebanho de ovelhas.

Patrul Rinpoche disse: "Estes dois, Doe Khyentse e Dodrup Chen, são Budas vivos. Se tivesses visão pura, os teria visto como genuínas encarnações do Rigdzin Jigmé Lingpa e seu discípulo, o primeiro Dodrup Chen Rinpoche.

"Tenho ensinado-te o Darma por um longo tempo, mas não posso garantir que irás para o paraíso de Padma Sambhava na Montanha Cor-de-Cobre quando morreres. Ainda assim, todas aquelas ovelhas, sem nenhuma exceção, através da benção excepcional daqueles dois sábios iluminados, irão direto para Zangdok Palri no momento em que morrerem. Não seríamos afortunados estando naquele rebanho?"

Assim, o comportamento iconoclástico ultrajante dos mestres tântricos foi explicado.



Uma Cerimônia de Chá Tibetana
Patrul Rinpoche acampava próximo ao lugar da famosa parede de pedras mani que sua encarnação anterior, Palgyé Tulku, havia começado e que ele mesmo havia completado. Era o ponto mais alto do inverno quando, bem cedo de manhã, uma garotinha vestindo uma roupa surrada de pele de marmota entrou em sua tenda.

Patrul perguntou por que ela saiu tão cedo num tempo tão ruim. A garotinha, congelada até os ossos, respondeu que estava procurando pela sua iaque fêmea.

O benevolente sábio ancião disse: "Venha, tenho algum chá quente e mingau".

Os nômades tibetanos geralmente carregam suas tigelas de chá feitas de madeira nas dobras das roupas. Quando Sotsé, o ajudante de Patrul, estava prestes a servir o chá, ele percebeu que a menina não tinha sua tigela com ela. Patrul imediatamente retirou sua própria tigela da mesa em frente, encheu-a com chá amanteigado quente e farinha torrada de cevada, e entregou-a para a garota.

A tímida criança hesitou. O ajudante de Patrul também surpreendeu-se... É impensável que uma pessoa comum beba do recipiente de um grande lama. Mas com o encorajamento do mestre, ela finalmente colocou a tigela nos lábios e bebeu, instintivamente aquecendo simultaneamente as mãos na morna madeira polida.

Patrul Rinpoche ficou satisfeito em ver a criança relaxar. Depois de ingerir a comida e bebida quentes, ela limpou completamente o recipiente com a imunda pele de sua roupa de marmota. Então, com ambas as mãos esticadas, ela respeitosamente devolveu o recipiente a Patrul.

"Talvez minha tigela estivesse muito suja pra ti, pequenina, já que quisestes limpá-la!", implicou Patrul. Sem lavá-la, ele serviu algum chá para si próprio.

Ele então pediu a seu discípulo Sotsé que ajudasse a criança a encontrar o iaque perdido. "E mantenha as mãos dela quentes!", ordenou Patrul.



Perfeita Generosidade
Por muitos anos Patrul Rinpoche utilizava o que quer que fosse oferecido a ele para patrocinar a escultura de mantras em pedras, que então eram empilhadas para formar um muro de orações. Dessa forma, ele sustentava muitos artesãos indigentes e paupérrimos, inspirando-os a trabalhar. Patrul certa vez cantou:
"Seja bom com os destituídos,
seja paciente e gentil com os malvados,
seja bom com os aflitos,
seja gentil com os tolos,
Empatize com os fracos e oprimidos,
seja especialmente compassivo para com aqueles que se apegam a uma realidade concreta."

Inevitavelmente, após dar esmolas aos mendigos, Patrul parecia ainda mais feliz do que eles. Ele preferia o som de alguém mendigando ao som de música ou conversa.

Uma vez um pobre escultor chamado Phukhop implorou dinheiro a ele. "Pobre amigo", disse Patrul, "apenas diga, 'não preciso de dinheiro', e eu te darei algum."

"Que tipo de brincadeira é esta?", Phukhop pensou, sem dizer nada.

Depois que Patrul Rinpoche repetiu seu pedido três vezes, o amarrado Phukhop finalmente murmurou: "Não preciso de dinheiro". O mestre, então, presenteou-o com um grande punhado de moedas.

Já que Patrul nunca perdia uma oportunidade de dar esmolas sob nenhuma circunstância, um discípulo pediu uma explicação sobre o comportamento do mestre.

Patrul contou esta história: "Uma vez, durante a vida de nosso guia espiritual, Buda Sakiamuni, um homem pobre ofereceu-lhe um pouco de doce. Um ganancioso Brâhmane imediatamente pediu pelo doce, sabendo que o Buda nunca dizia não. O Buda respondeu: 'Apenas diga, "Gautama, não preciso deste doce", e eu o darei a ti.' E assim foi feito".

"Mais tarde, Ananda pediu a Buda que explicasse. O Buda então detalhou: 'Através de quinhentas vidas, este Brâhmane nunca nenhuma vez sequer pronunciou as palavras "Eu não preciso". Eu o ajudei a pronunciar essas simples palavras de forma a gerar nele o sentimento de não precisar de nada. Diluindo a ganância, estas palavras plantarão nele as sementes da generosidade.'"

Então, por vários dias, nenhum escultor necessitado aproximou-se de Patrul. As oferendas dos fiéis empilhavam-se, já que não havia ninguém para quem distribuí-las. Repentinamente os olhinhos de Patrul brilharam. "Estão chegando!", ele gritou, reunindo todo seu dinheiro.

Quatro ou cinco escultores logo chegaram. Assim que os mendigos chegaram a sua presença, antes mesmo que pudessem falar qualquer coisa, Patrul exclamou: "Aqui está!" e entregou-lhes punhados de dinheiro. "Esculpam pedras mani!" Ele adicionou: "Cultivem virtude".

Depois que os escultores se foram, Patrul comentou: "Até que enfim me livrei daquela velharia! Tão inútil como um cadáver apodrecendo no chão!".



A Oferenda de uma Jovem

Uma vez Patrul Rinpoche deu extensos ensinamentos no Mosteiro Katok. Quando terminou os ensinamentos, o grande lama Katok Situ convidou Patrul para almoçar em sua casa dentro do mosteiro.

Depois de sentar na suíte do mestre, Patrul exclamou: "Como é luxuoso aqui! O Mosteiro Katok é amplamente conhecido por ser rico e próspero, mas tu pareces o mais próspero de todos. Olhe para estes carpetes de pele de tigre e de pele de pantera, caixas trabalhadas, implementos rituais de prata e ouro, tecidos de brocado, copos antigos de porcelana, terra e gado por toda a parte — parece um reino celestial. Não há certamente nada como isto na terra. Que admirável!".

Então acrescentou despreocupadamente: "Aliás, não tenho nada além de uma tigela de barro para ferver chá. Ouvi que viajarás em breve. Não poderias colocá-la em sua bagagem e levá-la para mim? Prefiro viajar leve".

Situ Chokyi Lodro disse a Patrul: "Certamente poderia levar sua tigela de barro. Não seria nada no meio de toda minha bagagem".

Depois que Patrul Rinpoche deixou Katok, Situ — que havia entendido a reprimenda implícita no pedido de Patrul — renunciou a seu mosteiro, posses e séquito de forma a viver solitário em uma caverna. Depois de secretamente deixar Katok, ele alcançou a Geleira Branca de Dokham, um local sagrado onde passou o resto de sua vida em solidão e simplicidade — vestindo trapos, trocou seus potes de porcelana por uma única tigela de madeira, e vivia com o mínimo.

Um dia ele mandou uma carta para Patrul, dizendo: "Apa (papai), palmas para mim. Seguindo teu conselho deixei tudo para trás e fui meditar".

Quando recebeu aquela mensagem, Patrul comentou aprovando: "Aqui está alguém que ouve o que eu digo".

Um dia um peregrino chegou à caverna de Katok Situ, acompanhado por uma garota que era sobrinha do Mestre Majusri, Jamyang Khyentse Wangpo. Ela recebeu a benção de Situ e então ofereceu a ele um pequeno saco de farinha de centeio.

O eremita disse: "Não tenho onde colocá-la. Deixe-a naquela pedra plana ali".

"Por favor, aceite-a, juntamente com o saco", ela insistiu.

Na frente de Situ jazia uma pedra preciosa, um tipo raro de ágata listrada muito preciosa no Tibete; alguém tinha colocado-a ali recentemente como uma oferenda, juntamente com um pedido pelas orações do santo eremita. Situ deu a pedra para a jovem, dizendo que a utilizasse no pescoço como proteção e benção.

Ela ficou relutante em aceitar um presente tão precioso de um monge empobrecido, mas o lama era irredutível. "Deves levá-la", ele disse, "há um grande significado nisso". Ela concordou.

Depois da garota completar sua peregrinação e retornar para casa, ouviu dizer que Katok Situ havia morrido. Não muito depois, foi como filho dela que ele escolheu renascer.

Onde Todas as Orações são Concedidas
Certa vez Khenpo Tashi Ozer estava retornando do Tibete central, acompanhado por um grupo de peregrinos. Entre eles estava uma jovem monja que era a reencarnação da famosa Dorje Pagmo de Yardrok. A companhia chegou a um vale nas montanhas acima do Mosteiro Dzagyal, onde Patrul Rinpoche, perto do fim de sua vida, estava vivendo isolado numa tenda de pele de iaque. Os viajantes duvidavam chegar a encontrar Patrul, que geralmente evitava encontros casuais.

"A vida é curta", Patrul dizia, "e a morte é iminente. Não procrastine."

Muitos dos peregrinos disseram que preferiam continuar a viagem do que se arriscar a não encontrar o famoso eremita. "Não se preocupem; o encontraremos", afirmava Khenpo Tashi.

Quando se aproximaram da tenda, a voz de Patrul podia ser ouvida: "Aí vem o grande Khenpo Tashi, exibindo sua jovem monja aristocrata do Tibete central. As pessoas nunca me deixam em paz! Ah-yii! Elas serão minha morte!".

Khenpo e seus seguidores imploraram ao mestre acuado, pedindo uma audiência. De dentro da tenda veio a resposta: "Não podem entrar! As pessoas nunca ouvem nada do que digo!".

"Sim, sim — nós ouviremos, nós ouviremos!", fizeram coro em resposta.

Patrul retrucou: "Então vão ao Mosteiro Dzagyal onde o corpo embalsamado de meu guru, Jigme Gyalway Nyugu, está num santuário. Ele era a deidade Chenrezig, Grande Compaixão, em pessoa; encarar seus restos é o mesmo que encontrar o Buda compassivo. Se fizerem oferendas para aquela relíquia sagrada, não encontrarão obstáculos nesta vida e certamente progredirão até a liberdade nas vidas futuras, finalmente alcançando a grande paz do Nirvana. Qualquer prece feita na frente daquelas relíquias certamente será concedida".

De acordo com essa ordem, todos desceram ao Mosteiro Dzagyal. Por três dias ofereceram orações, lamparinas de manteiga, prostrações, circumambulações, e banquetes sagrados. Somente então retornaram ao acampamento de Patrul.

Os peregrinos, ainda céticos sobre suas chances de encontrar Patrul, novamente foram tranqüilizados por Khenpo Tashi Ozer. "Não se preocupem, desta vez certamente vamos conhecê-lo."

Logo que se aproximaram da tenda, Patrul Rinpoche lamentou-se: "Estes sujeitos inquietos serão meu fim! Não podem deixar um velho em paz?".

Tashi Ozer dirigiu-se a ele: "Disseste que não ouviríamos a ti, mas ouvimos. Rezamos e fizemos oferendas perante as relíquias de Jigmé Gyalway Nyugu. Mas tu disseste que qualquer oração que fizéssemos se tornaria verdade; infelizmente, não parece ser o caso".

"O quê?!", exclamou um Patrul descontente e perplexo. "Isso é impossível! Que oração que fizestes que não se realizou? Nunca ouvi uma coisa dessas."

"Oramos: 'Possamos conhecer Patrul Rinpoche'", o inteligente khenpo respondeu.

Após um momento de silêncio, Patrul falou de novo. Agora tinha largado o tom grosseiro. "Tudo bem, tudo bem", ele concordou,"entrem".

Ele abriu a cortina cobrindo a porta de sua tenda. Então partiu direto para os ensinamentos, começando com os quatro pensamentos que transformam a mente e continuando com refúgio, Bodicita, e outros tópicos. Todos os presentes tornaram-se fervorosos seguidores de Patrul.

Sempre que Patrul ia apresentar homenagem aos restos de Gyalway Nyugu, ele orava fervorosamente:

"Em todas minhas vidas futuras,
Possa eu jamais cair sob influência de más companhias;
Possa eu jamais machucar até mesmo um fio de cabelo de qualquer ser vivo;
Possa eu jamais ser privado da sublime luz do Darma.

"Possa quem quer que se conecte comigo de qualquer forma possível
Ser purificado até mesmo dos mais sérios pecados;
Possa ele ou ela fechar a porta para o renascimento nos reinos inferiores,
E renascer na bem-aventurada Terra-de-Budas de Chenrayzig, Dewachen."

Desde então aos dias de hoje, diz-se que suas preces foram bem-sucedidas. Mesmo ler sobre Patrul é ter a grande sorte que inevitavelmente vem de tão auspiciosa conexão.


“Sinal Secreto”

Certa vez, quando Patrul Rinpoche estava em retiro, alguns monges eruditos que se opunham a suas visões não-sectárias foram até a entrada de sua caverna com a intenção de refutar publicamente suas idéias ecumênicas em debate. Eles chegaram acompanhados de uma vasta multidão de monges e curiosos dos vilarejos mais próximos. Patrul Rinpoche recebeu os convidados com sua usual cortesia e humildade. Então um dos monges eruditos perguntou a ele qual era sua afiliação religiosa, pensando que responderia “Nyingmapa”. Porém, Patrul Rinpoche respondeu que era apenas um seguidor do Buda. Novamente, tentando estabelecer suas conexões Nyingmapa, o monge perguntou o nome de seu lama de refúgio e de seu Guru Raiz, na esperança de que Patrul Rinpoche respondesse que era Gyalwe Nyugu. Mas Patrul Rinpoche respondeu que seu Guru Raiz, com quem havia tomado refúgio, era Triratna (as Três Jóias, Buda, Darma e Sanga). Estas respostas deixaram seus oponentes sem ter como começar o debate.

Então, frustrado, o chefe da comitiva de monges eruditos e mestre em debates perguntou a Patrul Rinpoche que nome secreto (gsang mtshan) lhe havia sido conferido quando da sua iniciação pelo seu Guru Raiz, pois isto certamente indicaria sua afiliação Nyingmapa, "sem dúvida alguma. Patrul Rinpoche levantou sua vestimenta e mostrou seu pênis, indicando que aquele era seu “nome secreto”. Em tibetano castiço, o pênis é chamado gsang mtshan, ou “sinal secreto”. A multidão caiu na gargalhada. Abandonando os esforços de armar um debate com Patrul, os arrogantes monges eruditos partiram, um tanto humilhados.

[de “Golden Letters”]


Traduzido para o português por Padma Dorje em Julho de 1999.

Para o bem de todos os seres.
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